Viajo na tua brancura

e descubro uma cicatriz

nas dobras do teu ventre

 

Sinto-te tão doce

que quase me ponho a chorar.

                                     19/03/1986

 

 

Nudez

 

Na luz do meu quarto

fica clara a luz do teu claro

e cara a cara clareia-se minh’ alma,

acalma-se minha garra

na clareira do teu corpo.

 

No nu da tua vida

desnudo meus receios

na nudez do teu ventre

e nas marcas do teu rosto

revejo-me nos meus seios.

 

Na luz clara do meu amor

Ilumina-se teu corpo nu.

                                            19/03/1986

 

NASCIMENTO


Passividade absoluta

para nascer em paz

do passado.


Movimento caótico,

metódico.

Move-se o vento.


Parricídio.

Padecimento mortal.

Desconhecido o pai.

                              Maio/1986

 

MAÍRA


De volta à realidade

reencontro Maíra.


Lindo sol cujas águas

refletem teu brilho

e lavam minh’ alma.


Não mais partirei

pequena Maíra.


Estou de volta ao sonho da vida

e vamos brincar como nunca.

Vou te ensinar a fazer bolo de aniversário

e tu me ensinarás a cantar ao contrário.


Teu pai será sempre um herói

a contar estórias “para boi dormir”

e, de mãos dadas, tu e eu,

criaremos nossas vidas

com as cores do arco-íris.


Então faremos uma grande festa

                                    para receber a alegria.
                                                                                                                                                                  11/05/1986

 


A  -  CAMINHO

Nem ilusão,

nem realidade.

Entre as duas

refaço a vida


e fico assim a brincar com esse imenso

 juntar-se que quase chego a desejar a plenitude.

                                                       15/03/1986

  

SIMPLESMENTE

 

Prepara-te para ser beijado

com todos os beijos enluarados

e saibas que terás abraços

tão cálidos quanto este momento.

 

Também serás acolhido

com todas as músicas do meu olhar

e te darei todas as estrelas do universo.

 

Prepara-te meu querido amigo

para todos os exageros do amor

porque monotonia é para os normais.

 

Espera, pois a qualquer hora

posso desejar teu coração

e roubar um instante teu

 

só para te dizer: TE AMO!

                                         11/05/1986

 

T E N T A Ç Ã O

 

Quieta no meu canto

batem-me à porta

o AMOR e o PODER.

 

Recebo-os no meu canto

quieta

e abraço suas intenções.

 

Quieta no meu canto

adentram minha casa

o PODER e o AMOR.

 

IMPERA O BARULHO!

 

Quieta no meu canto

ponho-os para fora.

1986

 


ESPERA

 

Não é noite nem é dia.

Não é cheio nem é vazio.

Não é grande nem é pequeno.

Não é dor nem é alegria.

Não é barulho nem é silêncio.

Não é frio nem é quente.

Não é medo nem é valentia.

Não é ação nem é repouso.

Não é duro nem é mole.

Não é sim nem é não.

30/06/1986

 

ESTÁ NA HORA DE ABRIR OS RECINTOS DA MADRUGADA. 

1986


 

                                                   S U P E R P O S I Ç Õ E S

 

                 Encontro um rabo de leão no meu caminho


                 batatas doiram na manteiga.


                                   Atendo ao telefone e uma voz sem face

                                   chega-me no momento.

 

Anoto recados. Fumo um cigarro. Respiro fundo.

 

O DIA ESTÁ NO MEIO.

 

No toque da campainha vem a mãe

buscar a moreninha ligeira.

 

Entre fantasias espalhadas no chão

acho as sandálias brancas.

 

Fecho a porta da rua.

 

É O MEIO DO DIA.

 

O guache colore a sala de trás

as mãos, os narizes e as vestes das crianças.

 

Pássaros, muitos, cantando nas árvores,

sobre as goiabas revoam eternamente.

 

É MEIO DIA.

 

Na paz do verão de final de semana

abraço-me no calor do abraço.

 

Paredes não dividem o contato.

Estou dentro das crianças da sala de fora.

 

É O MEIO DO DIA CHEIO.

 

Estou no meio

DO DIA

que está no meio.

1986

 

  

C A R T A D A


Adivinho tempos difíceis

em taças de prata

sorvendo o conteúdo de fel

que ainda resta

no fundo da minha voz.

 

Sombras do amanhã permutam

com o presente o seu apagar-se.

 

Adivinho lutas cruéis

carpindo no matadouro da razão.

 

Complexo destino

traçado por bruxas agourentas

tentando ceifar meus passos

na superfície ciumenta

dos seus estáticos quadros.

 

Adivinho sangrentas batalhas

realizadas nas noites de lua cheia,

vampiros e lobisomens

reunidos às margens dos rios poluídos

esperando, atrozes, a minha queda

definitiva!

 

Campos limpos e floridos

dançando sob meus pés e maviosas sereias

atraindo-me para o fundo das suas águas.


Adivinho a Justiça prestes a perder-se

no fio do meu controle.

Cães ladrando ao meu passar

e louca e cega vejo-me, sem perturbar-me,

dirigindo-me ao abismo perigoso.

 

Adivinho a minha descida pelo precipício,

sem olhar para trás!

1986

 

                                 S o r t i l é g i o

 

Senhora

             da Brisa

que traz e que leva

           notícias

                     do Mundo

traga-me uma certeza

            uma candeia

                     e

as cadências do Coração

                     do Mundo.

1986


MOMENTO

 

Na largura da minha janela

aparece claramente a manhã.

A novidade do dia amanhecendo

e o sol a bater no corpo dormente

lembram um vendedor de biju.

04/05/1986

 

Saiam dos buracos negros das paredes,

                                   inúteis cinzas da tarde

                                                                          1986


 

MEDO (II)


Medo de cair de medo,

trair o medo,

acordar do espanto, espantar o medo.

 

Ai que medo!

De andar sozinha,

perder a linha,

devolver o medo

ao meio do medo.

 

Medo cavernoso

de morrer de medo

no cio do medo.

 

Medo de desmascarar

o medo, sentir medo

do receio do medo.

03/04/1986

 

MARMORARIA


Mármores:

brancos

negros

rajados

inteiros

quebrados

revestidos

lisos

atraentes

diferentes

recobrem

terra

nua.

1986

 


Corpo a corpo

Cara a cara

Fúria e fera

Aniquilam-se

27/06/1986

 

DOMAÇÃO 

A mansa menininha

Amansa a fera

e a desafia

com vara curta.

 

A menininha mansa

fere a fera,

amansa-a

com fúria louca.

 

A fera fere a menininha,

trai sua mansidão

e traga a loucura

com mansa mão.

 

Sua loucura é fera ferida

de menininha amansada

contra sua vontade

com fúria louca.

 

A menininha fera

fere a fúria,

agarra com as garras

a vida traída.

 

Fera fúria ferida

apodera-se da menininha

na loucura de querer

para si a vida.

 

Com golpe fatal

desfere na fera

a dor da fúria

de ser presa 

da loucura.

 

Cresce feroz a menininha,

doma a fúria da fera

com gritos e pancadas

sem domínio da loucura.

Junho de 1986


TIRO 

Chispa faiscante na tarde

relampagueando o momento

atropela as minhas tarefas-relógio.


Compacto de emoções no bolso-jeans,

rastejada hora infame descarta-me

o tempo com a pólvora no coração.

1986

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...