C A R T A D A


Adivinho tempos difíceis

em taças de prata

sorvendo o conteúdo de fel

que ainda resta

no fundo da minha voz.

 

Sombras do amanhã permutam

com o presente o seu apagar-se.

 

Adivinho lutas cruéis

carpindo no matadouro da razão.

 

Complexo destino

traçado por bruxas agourentas

tentando ceifar meus passos

na superfície ciumenta

dos seus estáticos quadros.

 

Adivinho sangrentas batalhas

realizadas nas noites de lua cheia,

vampiros e lobisomens

reunidos às margens dos rios poluídos

esperando, atrozes, a minha queda

definitiva!

 

Campos limpos e floridos

dançando sob meus pés e maviosas sereias

atraindo-me para o fundo das suas águas.


Adivinho a Justiça prestes a perder-se

no fio do meu controle.

Cães ladrando ao meu passar

e louca e cega vejo-me, sem perturbar-me,

dirigindo-me ao abismo perigoso.

 

Adivinho a minha descida pelo precipício,

sem olhar para trás!

1986

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