VERSOS E REVERSOS

 

Não sei se é o luar, o astral,

ou quem sabe AQUARIUS.

Uma euforia de verão

ou um senso de união.

 

(As correntes de vidro, os anões nos quintais,

o vinho e o pão.)

 

Pode ser uma perda de referenciais

e uma gana de força e fé,

ou um tratado de paz no ar,

o fim das batalhas espaciais.

 

(As almas enlutadas, os magros rebentos,

Os sóis em bemóis.)

 

Quiçá um comunicado dos deuses,

o renascimento das esperanças à prestação,

feliz libertação: democracia no coração!

Ou um muro pintado por artista sonhador.

 

(As cabanas de doces, os prédios condenados,

os parques abandonados.)

 

Ou os sete metais integrados

no círculo dos iniciados,

dos bruxos, dos loucos,

dos párias, da PÁTRIA.

 

(As liras encantadas, os medos invisíveis,

as serras enluaradas.)

 

Talvez a esperteza da CRIAÇÃO

desmontando a grande explosão

por meio das energias individuais

prenhes de orações dos ancestrais.

 

(Os mares poluídos, os olhares entupidos,

as sereias enganadas)

 

Ou uma “deselitização” das ciências gerais

a desmamar das crenças tradicionais

e desarrumar os mitos enlatados

para consumo popular.

 

(Os amores em destroços, os punks fogosos,

sorrisos engolidos.)

 

Por outra, a crença nos oráculos,

nos cálculos, nos átomos, nos passos,

nos traços, nos gritos, nos arados,

nos trilhos, na trilha, em laços!

 

(As lágrimas prateadas, as folhas arrancadas,

as portas fechadas.)

 

Sim! Querubins enviados em sonhos,

passageiros mutantes da ordem terrestre,

aterrissam na praça a distribuir estrelas

aos sobreviventes da extraordinária nave.

 

(As borboletas caçadas, o ouro roubado,

as bolas perdidas.)

 

Tal forasteira em paragens estranhas

tateio o chão da poesia bruta,

observo a metamorfose do elenco

e retiro a LIBERDADE do baú.

 

Apesar da fome

do sim e do não

do norte do sul

da morte da hora

das crianças descalças

das guitarras do circo

dos romeiros e patrões

da brisa dos lençóis

dos erros e de EROS

Insisto em acreditar

q’o sol inda brilha!

1986

 

INTUIÇÃO

 

Hoje acontecerá algo especial,

grande, maior que a crise mundial.

 

Haverá um curto circuito espacial

que abalará as geleiras da Antártica.

 

A porta será arrombada pelo vento

e arcos líricos atravessarão os céus.

 

Virá em jatos de purpurina

o que não é para ficar desunido.

13/03/1986

 

PEDRA

Nada ficou para trás

Não ficou nada à frente.

 

Apenas amor a respirar

pelos meus poros,

a transparência da luz

e estranha mistura de água

e fúria contra a ordem mundial

de um deus prepotente e gelado

que se encerrou nas pedras duras.

13/03/1986

 

BOLHA

 

Sensação de estar dentro de uma bolha me faz tremer

como uma gelatina de cereja.

 

Dizem que o TAO acontece com práticas

e exercícios especiais e outros que tais.

Para mim acontece quando a noite anoitece

e quando o dia amanhece.

 

Devia mais é estar preocupada com a ciência

e escrever livros didáticos passo a passo,

pensados, elaborados e estruturados

segundo as normas da metodologia científica.

 

Como? Se não tenho método algum,

nem mesmo para descascar uma laranja

(diferente do meu avô que cientificamente

descascava a laranja inteira sem interrupções

com seu canivete japonês),

 

quanto mais para descrever o simples,

ensinar o plástico, o percebimento do mundo!?

E as metamorfoses constantes

 do meu encontro com Deus?!

14/07/1986

 

PALAVRAS


Estão aqui a bailar à minha volta

como samambaias ao vento nas sombras da parede.


As palavras!


Soltas, redondas, profanas.

O dia fica parado.

O relógio marca hora da noite

e a noite não vem.


As palavras!


Presa a elas desde que acordei

e quando é assim

não adianta desejar outra coisa.

Só me resta esperar que elas me libertem.


Se eu não me entregar totalmente

elas me soterram

e começo a doer.


Dói o corpo,

dói a alma,

doem os olhos,

doem as mãos.

Fico inteira a doer.

 

As palavras!

07/07/1986

 

Reação


Não sou como me querem

ESCLARECIDA – COMPORTADA – DÓCIL – DOMADA.

 

Minha natureza não se permite ser arrastada

pelas N + O + R + M + A + S   SO  + CI – AIIIS.

 

Tal qual animal primitivo

meu corpo reage às cadeias

e arrebenta as algemas.

 

Não acredito em revoluções,

  GRUPOS-INSTITUIÇÕES

 

N E M      E  M                    M O V I M E N T O S!

 

                    ILUSÕES

 

pra desculpar o jogo da morte

preencher o vazio

abandonar as crianças.

27/06/1986

 

AMOR

É uma mão invisível

e um rastro de luz.

Um cervo veloz

e um raio de luar.

 

É um som azul

e um ato de fé.

Olhos virados

e um rapto do tempo.

 

É um jeito encantado,

um fato consumado,

Um lapso de memória

e um trono dourado.

 

É um mundo rastreado

e um quarto de giz.

Um tempo esgotado

e um parto de mim.

 

É uma falta de espaço

e uma entrega sem fim.

Um caminho traçado

e uma força repleta.

 

É um calor subindo

e um concerto sem maestro.

É um diamante a bailar,

uma noite completa. É...

22/12/1985

 

 

 


O R D E M!

 

AI! Q    U    E     A    T    RA                               SO!

                                TODOS QUEREM SOLUÇÕES!


Mas, que RAIOS de soluções

                                              se todos tem conclusões

                                                                                     de antemão?

 

FIM PELO COMECE QUEM HÁ.

HÁ QUEM COMECE PELO COMEÇO.

                              HÁ QUEM COMECE PELO MEIO.

 

COMEÇO                                          MEIO                                               FIM


QUE BESTEIRA!


A SOLUÇÃO É NENHUMA

                                                  O FIM É FATAL

                                                  O MEIO É O GIRAR

                                                  O COMEÇO É O ENGANO

 

A TOTALIDADE ESTÁ NA FATALIDADE

                                                                dos girassóis

                                                                                         girando

                                                                                                    para o sol.

Está no começo do fim do meio e no meio do começo do fim e no fim do meio do começo.

27/06/1986

 

No exato momento
 em que a caneta o toca
 perde-se no papel o verso

viver em versos
o reverso da vida
no ponto de encontro
do sol e da lua

obedecer aos ciclos e raios
na roda de fogo
do país das aventuras
eis! O verso escondido nos dedos 

No exato momento
sem papel nos arredores 
o verso se acha
no mergulho da boca 

O tempo respira 
o silêncio abrupto 
que o reverso inspira 
no nascimento do amor 

 A entrega para dentro
de um homem nu
o conduz ao seio reverso do mundo.

 30/12/1986

  

PALHAÇADA

 

Atualmente

estou à procura de um palhaço.

Por favor alguém me avise se algum encontrar.

 

Tem que ser muito engraçado,

“cambalhoteador” da vida,

 a cara pintada

com as duas máscaras da alma.

 

Lágrimas e risos e barriga estufada,

sem cordões a prendê-lo e sem freios nos pés,

que às cegas percorra o picadeiro

e, na distração da corrida,

caia, em cheio, com a bunda n’água.

 

Mas que se levante num salto divertido

e se ponha comigo a dançar um tango “ar-rrentino”.

14/03/1986  

 

FAÍSCA

 

Risadas pleonásticas

Acordam as estrelas

Que brilham na ponta

De um fósforo azul.

1986

 


ENTRE 


Ele quase sorriu

quando toquei sua barba.

Quase me olhou

quando me sentei à sua frente.

 

Ele quase ficou feliz

quando cheguei mais perto.

Quase se abriu

quando respirei seu rosto.

 

Quase quase um gesto.

Olhou de soslaio

o efeito do desfecho.

 

Tenho quase certeza

que ele sorriu

quando me sentei à sua frente

e toquei em sua barba.

 

Quase tenho certeza

que ele ficou feliz,

quando aspirei seu rosto,

pelo ensaio do seu gesto.

 

Quase quase certeza

na leitura do seu corpo,

no soslaio do olhar,

que ele me quer.

21/01/1986

 

 

VOLTA

 

Olhem só o que me conta essa criança

loira e meiga, como um sol de primavera,

enquanto cata papéis de propaganda na rua

revela-me sem volteios e sem receios

a data e a hora da chegada do amor.

 

Sorrio e lhe beijo a face.

Digo-lhe que eu já sabia

que o amor me voltaria

sem rodeios e sem recheios

do passado que morreu.

 

Descerá com suas asas metálicas,

pousará, o amor, no reino dos humanos,

deixará atrás o outono oriental

e mergulhará sua nova face

no verão dos meus abraços.

 

Dezembro vingará a ausência,

as lutas e as tristezas do inverno

que engendrou ideias de união

pouco antes da partida,

antes do final do ciclo.

 

A vida continuará repleta de poesia,

completa de querença clara e simples,

cheia de amor para as crianças

e toda entregue aos sentidos de nós dois.

15/11/1986

 

 

ENCONTRO

 

Fui procurar o mestre,

mas ele não estava.


Queria ouvir o conforto

da sua voz, juntar os

pedaços da minha vida

e refazer meus encantos.

 

Mas o mestre não estava.

Confortei-me com minha voz,

Como adulta comportei-me

e silenciei meus segredos.

 

Porém, para meu próprio espanto

descobri que inexistem pedaços.

Nem despedaços. Sigo meu caminho,

pois o mestre não estava.


Ando solitária pelas ruas

sou-Eu caminhante-solidão.

 

O mestre não estava. Estava o vento.

Sigo o vento e ele me segue,

juntos, eu e o vento

a me sussurrar a solidão das coisas

e a me ensinar fluir leve

ao sabor das alegrias e tempestades.

 

Meu coração está muito triste.

Estou inteira triste. Não perdi nada,

Não recebi nada, não quero nada,

Não sei do amanhã e da sorte.

Só sei da tristeza.

 

A tristeza despertou na noite

e mostrou a irrealidade do amor.

Acompanha meu sofrimento

com mão amiga e me descarrega

das ilusões vestidas de felicidade.


Felicidade do amor-ilusão,

do amor revestido de ouro e mel.

 

O amor é real,

mais real que o beijo da morte.

 

A tristeza mostra que o amor

não sabe ser feliz, apenas amor.


Existe nos verso, mas não nos poetas,

consome-se na solidão, não nos amantes,

respira as flores, passeia sozinho,

embrenha-se nas cavernas,

dança nos quiosques, mas não no olhar,

no coração, no encontro das mãos.

 

Que poder tem o amor!

Tranca as portas, fecha as janelas,

afunda-se nas camas, isola-se do mundo.

 

Que poder tem o amor!

Muda os projetos, incomoda os vizinhos,

remove os eixos, descentraliza vontades.


Firme, reto, poderoso.

Grande poder tem o amor!

Desmitifica imagens.


O amor tem o poder de transformar

grandes homens em crianças birrentas,

sensíveis, irreverentes, prosaicas e irracionais.


Tem o poder de levar à loucura,

desequilibra o mais exímio equilibrista

e o faz cair estatelado ao chão.

 

Tão poderoso é o amor que todas as máscaras caem,

uma a uma, até se chegar à essência,

aos segredos mais escondidos, às imperfeições

mais abafadas, aos deslizes mais arraigados.

 

Declarar o amor é como dizer:

- Veja, estou nua, tire suas roupas,

esqueça os costumes, desarme-se dos conceitos,

respeite o meu ser, fique pequeno, vire bebê

como eu que nada sabe, pois é assim que te quero,

para poder crescer junto contigo, descobrir

tudo de novo, aprender a andar a dois,

mesmo se cair, até me soltar e ficar grande,

 andar e voltar a ser matriz.

 

Fui procurar o mestre e o mestre

estava em mim e essa verdade

deixa-me triste. Fico triste

 em saber o que foi, o que é e o que será.

Fico triste em saber que não há nada

a fazer, a não ser caminhar.


Felizes os animais que não têm que pensar,

seguem o ritmo natural das coisas

(não são eles deuses também?)

 

As florestas crescem, as árvores frutificam,

geram sementes e não ficam a pensar.

(não são elas deusas também?).

 

A semente do homem é dual.

A da mulher não. Do homem depende

O masculino-feminino. Da mulher não.

A mulher gera.

Cria em si, dentro de si, o homem,

A nova mulher. Não é dual.


A mulher é inteiramente andrógina

quando ama. Pode acolher dentro

 do seu corpo a semente do homem

e a sua própria. Isso a completa.

 

O homem precisa de justificativas

para amar uma mulher.


Facilmente

esvai-se com suas sementes,

teme perder sua força cerebral

dentro do corpo da mulher

 

Mas não precisa ser assim,

pois todas suas forças

ser-lhe-ão devolvidas

pela capacidade da mulher

de transformar semente em amor,

poesia, respeito, ternura, gratidão

e confiança para que ele possa continuar

com seus projetos e se tornar cada vez melhor.

 

O homem teme o demoníaco,

assim como teme o divino.

 

O demônio, porém, está na tentação,

não na conclusão, está na briga,

não no ato da entrega,

está na cabeça pensante,

não no sexo órgão. Está no medo,

não no amor, está na morte, não na vida,

está nas trevas, não na luz, sob a terra,

não na terra fértil e úmida.


Está no fogo rubro

que aquece e prepara

 os alimentos da alma.

 

Passamos pelo paraíso apressadamente,

de olhos vendados para não vislumbrar

as belezas. Vivemos mortos. No depois.

Grandes sublimações! Arte e Morte!

Assassinato em massa e Santidade.

Dual. Sempre dual.

 

Fui procurar o mestre,

mas ele não estava.


Estava você, estávamos eu e você

não podia me explicar as coisas da vida,

então segui meu caminho e o vento me contou

que tudo é uma coisa só, que tanto faz

compreender e ver o amor nas calçadas,

nos automóveis, nos bares, nas escadas

da minha casa, na almofada escrevendo versos.

 

Se tudo é uma coisa só,

nós também somos calçadas, automóveis, bares,

as escadas da minha casa,

a almofada onde escrevo

meus versos, o escrever, os versos, tudo!

 

Fui procurar o mestre, mas o mestre estava em mim.

                       (05/01/1986)

 

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...