ENCONTRO
Fui procurar o mestre,
mas ele não estava.
Queria ouvir o conforto
da sua voz, juntar os
pedaços da minha vida
e refazer meus
encantos.
Mas o mestre não estava.
Confortei-me com minha
voz,
Como adulta
comportei-me
e silenciei meus
segredos.
Porém, para meu próprio
espanto
descobri que inexistem
pedaços.
Nem despedaços. Sigo meu caminho,
pois o mestre não
estava.
Ando solitária pelas
ruas
sou-Eu caminhante-solidão.
O mestre não estava.
Estava o vento.
Sigo o vento e ele me
segue,
juntos, eu e o vento
a me sussurrar a
solidão das coisas
e a me ensinar fluir
leve
ao sabor das alegrias e
tempestades.
Meu coração está muito
triste.
Estou inteira triste.
Não perdi nada,
Não recebi nada, não
quero nada,
Não sei do amanhã e da
sorte.
Só sei da tristeza.
A tristeza despertou na
noite
e mostrou a irrealidade
do amor.
Acompanha meu
sofrimento
com mão amiga e me
descarrega
das ilusões vestidas de
felicidade.
Felicidade do
amor-ilusão,
do amor revestido de
ouro e mel.
O amor é real,
mais real que o beijo
da morte.
A tristeza mostra que o amor
não sabe ser feliz,
apenas amor.
Existe nos verso, mas
não nos poetas,
consome-se na solidão,
não nos amantes,
respira as flores,
passeia sozinho,
embrenha-se nas
cavernas,
dança nos quiosques,
mas não no olhar,
no coração, no encontro
das mãos.
Que poder tem o amor!
Tranca as portas, fecha
as janelas,
afunda-se nas camas,
isola-se do mundo.
Que poder tem o amor!
Muda os projetos,
incomoda os vizinhos,
remove os eixos,
descentraliza vontades.
Firme, reto, poderoso.
Grande poder tem o
amor!
Desmitifica imagens.
O amor tem o poder de transformar
grandes homens em
crianças birrentas,
sensíveis,
irreverentes, prosaicas e irracionais.
Tem o poder de levar à
loucura,
desequilibra o mais
exímio equilibrista
e o faz cair estatelado
ao chão.
Tão poderoso é o amor
que todas as máscaras caem,
uma a uma, até se
chegar à essência,
aos segredos mais
escondidos, às imperfeições
mais abafadas, aos
deslizes mais arraigados.
Declarar o amor é como
dizer:
- Veja, estou nua, tire
suas roupas,
esqueça os costumes,
desarme-se dos conceitos,
respeite o meu ser,
fique pequeno, vire bebê
como eu que nada sabe,
pois é assim que te quero,
para poder crescer
junto contigo, descobrir
tudo de novo, aprender
a andar a dois,
mesmo se cair, até me
soltar e ficar grande,
andar e voltar a ser matriz.
Fui procurar o mestre e
o mestre
estava em mim e essa
verdade
deixa-me triste. Fico
triste
em saber o que foi, o que é e o que será.
Fico triste em saber
que não há nada
a fazer, a não ser
caminhar.
Felizes os animais que
não têm que pensar,
seguem o ritmo natural
das coisas
(não são eles deuses
também?)
As florestas crescem,
as árvores frutificam,
geram sementes e não
ficam a pensar.
(não são elas deusas
também?).
A semente do homem é
dual.
A da mulher não. Do
homem depende
O masculino-feminino.
Da mulher não.
A mulher gera.
Cria em si, dentro de
si, o homem,
A nova mulher. Não é
dual.
A mulher é inteiramente
andrógina
quando ama. Pode
acolher dentro
do seu corpo a semente do homem
e a sua própria. Isso a
completa.
O homem precisa de
justificativas
para amar uma mulher.
Facilmente
esvai-se com suas
sementes,
teme perder sua força
cerebral
dentro do corpo da
mulher
Mas não precisa
ser assim,
pois todas suas forças
ser-lhe-ão devolvidas
pela capacidade da
mulher
de transformar semente
em amor,
poesia, respeito,
ternura, gratidão
e confiança para que
ele possa continuar
com seus projetos e se
tornar cada vez melhor.
O homem teme o
demoníaco,
assim como teme o
divino.
O demônio, porém, está
na tentação,
não na conclusão, está
na briga,
não no ato da entrega,
está na cabeça
pensante,
não no sexo órgão. Está
no medo,
não no amor, está na
morte, não na vida,
está nas trevas, não na
luz, sob a terra,
não na terra fértil e
úmida.
Está no fogo rubro
que aquece e prepara
os alimentos da alma.
Passamos pelo paraíso
apressadamente,
de olhos vendados para
não vislumbrar
as belezas. Vivemos
mortos. No depois.
Grandes sublimações!
Arte e Morte!
Assassinato em massa e
Santidade.
Dual. Sempre dual.
Fui procurar o mestre,
mas ele não estava.
Estava você, estávamos
eu e você
não podia me explicar
as coisas da vida,
então segui meu caminho
e o vento me contou
que tudo é uma coisa
só, que tanto faz
compreender e ver o
amor nas calçadas,
nos automóveis, nos
bares, nas escadas
da minha casa, na
almofada escrevendo versos.
Se tudo é uma coisa só,
nós também somos calçadas,
automóveis, bares,
as escadas da minha
casa,
a almofada onde escrevo
meus versos, o
escrever, os versos, tudo!
Fui procurar o mestre,
mas o mestre estava em mim.
(05/01/1986)