VAZIO


Saiam todos!


Há água no pote e comida na mesa.


Saiam todos!


Há vida nas ruas e morte nas noites.


Deixem-me só!


Preciso de um trago de mel com luar.

1986

 

A urgência de esvaziar a casa

bate na vidraça, no telhado,

na carcaça.


Como se fosse ato de peça

o Inacabado bate à minha porta,

entra pelas frestas,


derruba o dia, cerra o momento,

acorda o poema, engole a língua,

trai o sossego, um algoz.


Poeta - capacho da palavra,

desterro da alma.

1986

 


Caminho tranquila

por prados e emboscadas

e molho meus pés

na água da enxurrada.

04/06/1986

  

EXÍLIO

 

Brota a roda rolante

e do caos nasce o bem-te-vi.

Abandono as crianças do mundo

e me exilo nas profundezas do meu ser.


A partida brusca rompe meu ventre.

Parto em busca de nada

na rota rolante da vida.

03/03/1986

  

NO   AR

 

JAZ

JAZZ

ZZZZZZZZZZZZUUUUUUUUUUUUMMMMMMMMMMMM

ouviu-se

placidamente

o Ipiranga.

 

                                        SILÊNCIO

                                        SUMÁRIO

                                        INCOMUNICÁVEL.

 

Revirada

PÁTRIA ADORADA

treme

TRIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMM

 

                                     QUEM SABE

                                     ainda respira

                                     OH! LIBERDADE!

                                                              11/12/1986

 

Brincar

 

Tenho uma ilha

cercada com cascas de pitanga

e no meu quintal

brinco de anoitecer

qual memória de criança.

 

Carrego lembranças

de mares e conchas quebradas.

Vejo com os olhos da madrugada

e jazem brinquedos na calçada.

 

Jamais segurar o tempo

é o que espera a vida

e antes que os abismos

se abram, sonharei.

1986

 

BUQUET

 

Esvazia-se a vinha vermelha

do meu amor.


Verdes garrafas engolfam as tarde do meu amor.

A adega esconde o vinhedo rubro

do meu amor.

1986

 

S

U

B

M

E

R

G

I

R

 

T

A

N

T

O

 

E

 

M

A

I

S

 

N

O

 

DENSO

 

M

Ó

V

E

L

 

 

MAR

 

D

O

 

A

M

A

R

 

A M A R

 

M O V I M E N T O

 

IN

 

T E N S O


1986

 

                                                                   O amor
                                                            não pensa.
                                                           Transgride.
                                          Brinca.
                                          Troca.

                                                                      1986

 

Tempo

 

O pequeno tempo está aqui

e posso vê-lo no teu perfil

 

Lá onde não me podes ver.

O vento grande a sussurrar

envolve-me em seus segredos

e traz o pequeno tempo para cá.

 

Coroada de noite escura.

Embalo teu sono e o tempo

grande agita suas asas brancas

sobre o corpo que sonho de dormir.

                                                  1986

                                                          ONDE


Fugiu-me o tempo,

(pressa de abismos),

esqueci-me do rapto?

 

Não existe chão – perdi os atos?

 

... o amor caiu varado

em setas de luas ausentes

para fazer de mim sua aliada?

 

Fugiu-me o espaço,

reduto de magos,

e adquiri um novo corpo?

 

Perdi o tato

para enlaçar-me nua

com a virgem água?

                                     1986


Tempo grosseiro
dos infelizes,
faceiro dos namorados,
incólume, dos deuses!
Tempo!
Maravilha invisível
de Luas e Marias,
escorpiões e salamandras,
pendurados nos varais.
Tempo Maior!
De Pedros e sacis
deitados ao sol.
Minha face cansada,
meus braços vazios
de santos e profetas
anulam o tempo,
com o coração desperto
nos limites do dia,
 nos entremeios das pausas.
1986

 


UM DIA


Intrépido cavalo marinho da cor do coral,

pendurado ao vento na hora da fantasia,

escolha o movimento na solidão das chinelas sob a cama,


convide a lua para sair do convento

e participar da conferência das estrela negras

no oceanário da criação ainda sem forma .

 

Linda princesa de carnaval em veraneio

a correr em ilustre rua, um dia terás as vinhas

e em reunião escolherás desperta as veias de um amor.


                 A existência das palavras levar-te-á aos céus.
                                                                                                                                                                                              19/07/1986


MARCA DE GIZ


Eu menina desenhei com giz as costas da cama.


Tudo enleva meu olhar neste mês bem no meio da caixa torácica.


Caminho na raiz das dúvidas e faço um juramento:

- sempre que um Serafim injuriar uma nuvem

dançarei uma dança lenta e lembrarei da luz

que faz a alegria esquecer das melodias


e nas canções dos relógios

colocarei meus pés na lama.

 

Não ouvirei conselhos,

nem terei receios de colegial.


            Sairei às ruas com atraso e lerei os recados

      nas chapas dos carros.


                      Ajudarei a mãe do amigo a lutar com a sensação

                                do sem jeito para perceber que o tempo é      

                                                       agora

                                                             07/1986

 

O FURO


Tanto rodou

Que furou

Aí parou

 

Tanto riu

Neste frio

Que ficou

 

Rindo furado parado no frio

 

Louco diriam?

03/07/1986

 

COCEIRA

 

Quando eu era criança

na serra

do rola moça

rolou uma moça

e desde então coçou.

 

Fiquei sofrendo de coceira

nas ideias.

03/07/1986


 

MONÓLOGO

 

Não morrerei agora Morte.

Não insista em me levar,

pois já não preciso de ti

e não vou mais te chamar.


Portanto, agora não morrerei.

 

Não, não me leve agora,

mudarei meu destino

e meu coração não explodirá,

minhas veias voltarão a funcionar.


 Meu rosto brilhará como nunca.

 

Não, não me leve já

porque tenho muito amor

e uma enorme estrela

a renascer no meu ventre.

 

Não! Não!

Não se apodere da matéria.


Este corpo é meu

e meu o comando.

Vá-se embora

às profundezas cinzentas.

 

Não! Agora não me levarás,

dentro do meu sol

há outro sol

que esquenta e derrete teu punhal.


minha pele respira

os perfumes e suores

das batalhas do mundo,

que é como é.

 

Aqui ficarei

entregue e entrelaçada

à outras vidas sementes

e um grito vibrará no espaço.


Não! Não me leve agora.

 11/05/1986


 

T A O

 

Eis que chega ao Ocidente o Tao:

racional!

E balança o coreto do tal:

racional!

 

Eis que os cientistas estudam o Tao:

racional!

E alimentam o tal do ego

racional!

 

E o tal do Tao

traz tão grande confusão

que não se sabe mais o tal

aquele que vive o Tao


de almanaque

ou dos raros textos esotéricos.

 

Então o tal muda,

compra incenso

Faz jejum

Abstinência

Hare! Hare!

Faz as malas

e se orienta para o Oriente.

 

Tal qual monge budista

mascara um risinho permanente,

 mas cínico nos lábios

e perpetua a miséria

racional!

 

O Tao fica representado

na parede do apartamento

citadino e cabalístico.


Junta as horas dos dias.

Racional!

03/07/1986

 


R E C O L H I M E N T O

 

Silencia coração

porque é noite

e nesta hora

escura


dormem os vizinhos,

dorme a cidade,

dorme a criança.


Só o relógio da luz

e a caneta no papel

estão acordados.

 

Silencia coração

porque nesta noite

escura


teu amor não virá,

excursiona pela música

e se embala ao luar.


Só há de ouvir

suas próprias batidas

e o grilo a cantar

no jardim.

 

Silencia coração,

pois já é tarde

e tuas mágoas choraste

escuras


na solidão que escolheste –

refúgio do amor.

 

Silencia coração

que amanhã será outro dia


e o que hoje a ti recusas

por capricho e vaidade

na noite

escura


voltará com o sol.

03/07/1986

 

MATÉRIA IN


         Teimo em fazer uma torre de capim

enquanto as maravilhas do acontecer

não esperam o pensamento.

 

As avenidas correm sempre

para o mesmo estranho lugar

 passa-passa o tempo

no passatempo dos cruzeiros.

 

Nesta falta de lógica que agita o momento

os restos de um canto passeiam de guarda-chuva

ao sol de novembro

e um unicórnio

cava o chão das travessuras no olival das canções.

 

Tudo deve acontecer

conforme o planejado nas bolas de cristal

antes que o verão se aproxime

com sua mania de sorvetes cremosos.

 

Rui na cama o ruído das calças passadas

a ferro na segunda-feira

e cristalinamente recupera-se a noção

de prazer e resguardo manso.

 

Assim volta na tarde

um pedaço do canavial escondido

em camadas nuas.

 

Está na hora de abrir os recintos da madrugada.

 

Esta enxovalhada de palavras-tortas-de-maçã

anunciam um corcel a batalhar nos campos

de um tempo terrestre findo.

 

Além marcas douradas

suspiram as notícias de jornal com loucos recados

e a rapidez de sinais teleguiados

das profundezas escuras do lago.


Afina-se, há mais de uma hora, a voz de uma criança.

Vem de um manancial eterno de cruzes sobrepostas

a formarem cubos.

 

O que acontecerá no quarto ao lado

da minha matéria crua?

26/10/1986

 


 EX

 

Esgota

Ex gosta

asila

 

escolhe

ex colhe

esforço

 

exprime

esvai

ex vai

 

esmaece

exame

ex drama

 

extrai

exila

expira

20/11/1986

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...