VAZIO
Saiam todos!
Há água no pote e comida na mesa.
Saiam todos!
Há vida nas ruas e morte nas noites.
Deixem-me só!
Preciso de um trago de mel com luar.
1986
Brincar
Tenho
uma ilha
cercada
com cascas de pitanga
e no meu quintal
brinco
de anoitecer
qual
memória de criança.
Carrego
lembranças
de
mares e conchas quebradas.
Vejo
com os olhos da madrugada
e jazem brinquedos na calçada.
Jamais
segurar o tempo
é o que espera a vida
e antes que os abismos
se
abram, sonharei.
1986
Tempo grosseiro
dos infelizes,
faceiro dos namorados,
incólume, dos deuses!
Tempo!
Maravilha invisível
de Luas e Marias,
escorpiões e salamandras,
pendurados nos varais.
Tempo Maior!
De Pedros e sacis
deitados ao sol.
Minha face cansada,
meus braços vazios
de santos e profetas
anulam o tempo,
com o coração desperto
nos limites do dia,
nos entremeios das pausas.
1986
UM DIA
Intrépido cavalo
marinho da cor do coral,
pendurado ao vento na
hora da fantasia,
escolha o movimento na
solidão das chinelas sob a cama,
convide a lua para sair
do convento
e participar da
conferência das estrela negras
no oceanário da criação
ainda sem forma .
Linda princesa de
carnaval em veraneio
a correr em ilustre
rua, um dia terás as vinhas
e em reunião escolherás
desperta as veias de um amor.
MARCA DE GIZ
Eu menina desenhei com
giz as costas da cama.
Tudo enleva meu olhar neste mês bem no meio da caixa torácica.
Caminho na raiz das
dúvidas e faço um juramento:
- sempre que um Serafim
injuriar uma nuvem
dançarei uma dança
lenta e lembrarei da luz
que faz a alegria
esquecer das melodias
e nas canções dos
relógios
colocarei meus pés na
lama.
Não ouvirei conselhos,
nem terei receios de
colegial.
Sairei às ruas com
atraso e lerei os recados
nas chapas dos carros.
Ajudarei a mãe do amigo
a lutar com a sensação
do sem jeito para perceber que o tempo é
agora
07/1986
MONÓLOGO
Não morrerei agora Morte.
Não insista em me
levar,
pois já não preciso de
ti
e não vou mais te
chamar.
Portanto, agora não
morrerei.
Não, não me leve agora,
mudarei meu destino
e meu coração não
explodirá,
minhas veias voltarão a
funcionar.
Meu rosto brilhará como nunca.
Não, não me leve já
porque tenho muito amor
e uma enorme estrela
a renascer no meu ventre.
Não! Não!
Não se apodere da
matéria.
Este corpo é meu
e meu o comando.
Vá-se embora
às profundezas
cinzentas.
Não! Agora não me
levarás,
dentro do meu sol
há outro sol
que esquenta e derrete
teu punhal.
minha pele respira
os perfumes e suores
das batalhas do mundo,
que é como é.
Aqui ficarei
entregue e entrelaçada
à outras vidas sementes
e um grito vibrará no espaço.
Não! Não me leve agora.
T A O
Eis que chega ao
Ocidente o Tao:
racional!
E balança o coreto do
tal:
racional!
Eis que os cientistas
estudam o Tao:
racional!
E alimentam o tal do
ego
racional!
E o tal do Tao
traz tão grande
confusão
que não se sabe mais o
tal
aquele que vive o
Tao
de almanaque
ou dos raros textos
esotéricos.
Então o tal muda,
compra incenso
Faz jejum
Abstinência
Hare! Hare!
Faz as malas
e se orienta para o
Oriente.
Tal qual monge budista
mascara um risinho
permanente,
mas cínico nos lábios
e perpetua a miséria
racional!
O Tao fica representado
na parede do
apartamento
citadino e cabalístico.
Junta as horas dos dias.
Racional!
03/07/1986
R E C O L H I M E N T O
Silencia coração
porque é noite
e nesta hora
escura
dormem os vizinhos,
dorme a cidade,
dorme a criança.
Só o relógio da luz
e a caneta no papel
estão acordados.
Silencia coração
porque nesta noite
escura
teu amor não virá,
excursiona pela música
e se embala ao luar.
Só há de ouvir
suas próprias batidas
e o grilo a cantar
no jardim.
Silencia coração,
pois já é tarde
e tuas mágoas choraste
escuras
na solidão que
escolheste –
refúgio do amor.
Silencia coração
que amanhã será outro
dia
e o que hoje a ti
recusas
por capricho e vaidade
na noite
escura
voltará com o sol.
03/07/1986
MATÉRIA IN
Teimo em fazer uma torre de capim
enquanto as maravilhas
do acontecer
não esperam o
pensamento.
As avenidas correm
sempre
para o mesmo estranho
lugar
passa-passa o tempo
no passatempo dos
cruzeiros.
Nesta falta de lógica
que agita o momento
os restos de um canto
passeiam de guarda-chuva
ao sol de novembro
e um unicórnio
cava o chão das
travessuras no olival das canções.
Tudo deve acontecer
conforme o planejado
nas bolas de cristal
antes que o verão se
aproxime
com sua mania de
sorvetes cremosos.
Rui na cama o ruído das
calças passadas
a ferro na
segunda-feira
e cristalinamente
recupera-se a noção
de prazer e resguardo
manso.
Assim volta na tarde
um pedaço do canavial
escondido
em camadas nuas.
Está na hora de abrir
os recintos da madrugada.
Esta enxovalhada de
palavras-tortas-de-maçã
anunciam um corcel a batalhar
nos campos
de um tempo terrestre
findo.
Além marcas douradas
suspiram as notícias de
jornal com loucos recados
e a rapidez de sinais
teleguiados
das profundezas escuras
do lago.
Afina-se, há mais de
uma hora, a voz de uma criança.
Vem de um manancial
eterno de cruzes sobrepostas
a formarem cubos.
O que acontecerá no
quarto ao lado
da minha matéria crua?
26/10/1986
1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 - ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...