MATÉRIA IN


         Teimo em fazer uma torre de capim

enquanto as maravilhas do acontecer

não esperam o pensamento.

 

As avenidas correm sempre

para o mesmo estranho lugar

 passa-passa o tempo

no passatempo dos cruzeiros.

 

Nesta falta de lógica que agita o momento

os restos de um canto passeiam de guarda-chuva

ao sol de novembro

e um unicórnio

cava o chão das travessuras no olival das canções.

 

Tudo deve acontecer

conforme o planejado nas bolas de cristal

antes que o verão se aproxime

com sua mania de sorvetes cremosos.

 

Rui na cama o ruído das calças passadas

a ferro na segunda-feira

e cristalinamente recupera-se a noção

de prazer e resguardo manso.

 

Assim volta na tarde

um pedaço do canavial escondido

em camadas nuas.

 

Está na hora de abrir os recintos da madrugada.

 

Esta enxovalhada de palavras-tortas-de-maçã

anunciam um corcel a batalhar nos campos

de um tempo terrestre findo.

 

Além marcas douradas

suspiram as notícias de jornal com loucos recados

e a rapidez de sinais teleguiados

das profundezas escuras do lago.


Afina-se, há mais de uma hora, a voz de uma criança.

Vem de um manancial eterno de cruzes sobrepostas

a formarem cubos.

 

O que acontecerá no quarto ao lado

da minha matéria crua?

26/10/1986

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