O menino da cor da noite (título provisório) 

O menino da cor da noite veio de mansinho. Desceu da nave e caminhou até o buraco da montanha. Era um enorme buraco na parede. Lá dentro tudo escuro. Escuro como o carvão. Como o grafite. Escuro como o medo. Entrou. Foi entrando lentamente naquela caverna. Aquele buraco escuro na parede da montanha tinha o nome de caverna.

É bom lembrar, a quem não lembra, porque é ainda muito pequeno e antes de nascer não soube do acontecido porque estava muito ocupado com outras coisas, que houve um tempo, num lugar chamado Terra, onde existiram seres chamados homens, mulheres, crianças, árvores, montanhas e mares, países, governos e cidades, além de muitas variações onde tudo tinha nome e valor (a nave de Cor da Noite devia valer uma nota naquele tempo). Tudo daquele tempo acabou. Se sumiu ou se queimou, ninguém sabe, ninguém viu. Apenas acabou. Homens, mulheres, crianças, árvores, montanhas, mares, países, governos, cidades e o monte de outras cousas mais.

Cor da Noite não sabia o que era uma caverna. Não importa. Entrou mesmo assim. Aos poucos seus olhos foram se acostumando com a escuridão. Nas paredes havia desenhos que mostravam animais que ele nunca vira. Aliás, nem sabia o que era um animal. Grandes, com chifres. Havia um desenho de um ser de dois pés, com algo pontudo nas mãos. Não se deteve ali por muito tempo. Continuou. Ouviu um barulhinho. Ratos? Morcegos? Quem sabe, talvez.

- Quem está aí?

- Nossa! Que vozeirão! (Quase caí da cadeira), mas Cor da Noite não se assustou e respondeu:

- Sou eu.

- Eu quem? – perguntou a forte e rouca voz.

- O menino da cor da noite. Meu nome é Cor da Noite.

- Noite não tem cor, resmungou quem não apareceu ainda – soou cavernosa a voz. – De onde vem você?

- Noite tem cor sim. Venho de lá – apontou para cima o menino.

- Vamos aproxime-se menino, não consigo vê-lo.

- Mas é claro que não. Você é burro? Se a caverna é escura e eu sou da cor da noite, que pode ficar clara quando a lua e as muitas estrelas aparecem, mas aqui onde estamos não há lua nem estrelas. Mesmo assim Cor da noite deu alguns passos à frente e quando sentiu a proximidade de um hálito quente perguntou: - Quem é você?

- Sou o espírito da caverna.

- O que é um espírito? – perguntou.

Tal coisa o menino não podia saber. Do mundo de onde veio ele próprio tinha um espírito e nem sabia disso. Lembrou-se da menina que procurava a pérola. Como alguém pode saber que é alguma coisa? Só porque falaram? Ou por que estava escrito em algum livro?

- Espírito é a embalagem que envolve o espaço e as palavras.

Bem, se a narradora aqui entendeu, ele está querendo dizer que o espírito é a caverna e sua voz. Para Cor da Noite que fez de conta que entendeu ou nem ligou para a explicação de quem era a voz e tinha muito a explorar ainda, as explicações não faziam muita diferença. Resolveu continuar o caminho para dentro da caverna, mas para não ser mal-educado, falou – estou viajando pelo espaço. Eu estava acompanhado por uma menina, minha amiga, mas ela resolveu ficar no planeta Rosa por uns tempos...Acho que cansou de mim. Também eu só chorava. Ela dormia e eu chorava em seus sonhos. Ela acordava e eu chorava em seus ouvidos. Chorão chorão chorão. Isso é o que eu era.

- Afinal, por que você chorava tanto? – perguntou o espírito da caverna.

- Porque eu achava que não tinha nada. Porque eu achava que ninguém me amava. Porque eu não tinha mãe.

- E você tem tudo isso agora?

- Sim. Sempre tive tudo o que precisava, mas eu não sabia. Eu sou tudo. Eu sou o Amor. Eu sou minha mãe a cada instante. A cada instante morro e renasço. Entendeu?

- Claro que sim. Pois não sou eu o Espírito da Caverna?

O que eu não sei é se as crianças e os jovens que estão lendo essa história estão entendendo. Não é religião não. Catecismo também não é.. Já sei! Peçam para a mamãe ou o papai ou a titia ou a vovó ou você mesmo/a procurar a lenda da fênix. Ou olhem as ondas do mar, as nuvens do céu. Ou leiam a história depois que crescerem.

- O que você veio fazer aqui dentro? – rosnou a voz.

- Nada. Desci aqui perto. Vi o buraco. Entrei.

- Pois não devia ter feito isso assim tão incautamente. Nuca mais sairá daqui! – berrou o espírito, feito um tirano.

- Por q.... Nem teve tempo para terminar a pergunta. Garras violentas de uma coisa voadora o arrebatou para o teto da caverna. Na pequena plataforma onde fora colocado viu outro buraco na parede. Era apertado, mas resolveu entrar para se livrar da coisa. Pareceu-lhe ainda mais escuro. Súbito apertarem-lhe a garganta. Lutou valentemente com aquela coisa com toda sua força e conseguiu se desvencilhar daquelas garras cheias de dedos. Uns quarenta dedos. Saiu correndo e bateu a cabeça na ponta de uma pedra. Limpou a testa molhada de sangue ou suor. Estava muito, mas muito escuro mesmo. Começou a ficar sem ar. Era só o que faltava! Morrer logo agora! Havia tanto ainda para conhecer! Mal se livrara da menina que o fazia chorar. A menina que o fazia chorar?! Será? Mas como! Não era eu que chorava na menina? Peralá... Então era isso? Nunca fui chorão e eu que pensei....

- mas não há muito tempo para pensar não. E aí menino? O ar está acabando. O que vamos fazer agora?

- Sei lá. Não é você que está inventando essa história? Pois vire-se e rápido antes que eu morra.

- virar, virar, ai ai, o que é que eu vou fazer? Uma fada? Um mago? Um príncipe? Não, está maluca? Nesta história não tem príncipes. Um gnomo? Não sei não.

- Menino eu vou pular fora. Não vou te ajudar. Quero ver se você será capaz de sair dessa.


1988

 

 

 

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