Crônica do Adeus

 

Quando os espanhóis cá chegaram evidentemente não sabiam seus filhos, netos, bisnetos. Haveriam de criá-los. Lá nos confins do início do século nasceu minha avó, que de tudo um pouco viu no desdobrar dos anos. A missa, a fábrica, a revolução. A varíola, a febre, os partos. Entrelaces, mortes, futuros. Portanto, foi-lhe fácil abrir seus braços ao meu barulho adolescente... Recolhendo sonhos distanciados da sua memória... Naquela época eu media o tempo através da campainha musical da escola, mas um amargor de praia abandonada me consumia. Foi o segundo adeus. Na véspera de Natal, num tempo muito antes, um beijo de marsipan perdeu-se no batismo da minha boneca. Morto está agora o padre de brinquedo. Foi o primeiro adeus.  O cheiro de fumaça de forno à lenha sempre presente nos meus passos e a perenidade das ondas trouxeram-me de volta. A cidade não mudara seus confeitos e a “piscina” que virou zoológico, as velhas calçadas da Vila Espanhola e o Seu Zé imortal apoderaram-se da rua onde nasci. Houve até a sensação de paineira resistindo antes da machadada final. Porém,  a cidade vazia não oferecia aventuras de um não sei quê para num sei onde e de bebê em punho voltei ao mar. Devorou-me a ansiedade das areias e cada grão parecia mais intenso. Nada aprendi porque a água salgada lavava todas as manhãs as noites enlouquecidas de poesia, que em mim não se achavam. Mas, destino, estrelas ou leviandade (como saber?) quiseram-me novamente caminhante e subi a serra na escuridão. Não sabia que morreria a menina. Uma cidade nova e estranha, como o mesmo Seu Zé à janela e mais velhas ainda as calçadas, saíram do silêncio do asfalto e meus olhos puderam chorar o pai desconhecido e ler o nome das coisas na azul transparência do olhar da minha sempre avó. Agora, outra partida avizinha-se. Deixarei a cidade a guardar as notícias em suas casas, enquanto devagar descubro no mundo o mundo interior da eternidade. Deixarei a cidade guardada no fundo do bolso da minha calça jeans, embalada na poesia, finalmente em mim encontrada. Quando eu for velha bem velha (como minha vó) e para aqui eu voltar, mesmo que seja só em pensamentos, falarei da solidão de quem se deixou viver e morrer enredada na ambivalência das palavras.  28/29/30/11/1992.

 

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