MIRAGENS


Deixo correr em estado líquido o absurdo,

Uma maneira de exercitar a forma

Do que não tem forma na noite contínua,

Que desaparece no dia e circula no gasoso.



Mudança de estado natural circunscreve

Uma circunferência na cabeça do anjo.

Nada a largas braçadas em rio

Desconhecido de águas límpidas.



Volteiam aparições de gás neon em meus olhos.

Formas indescritíveis perambulam e riem

Da surpresa. Liquidam com o senso do comum

No desenrolar dos meses de um ano a passar.



Uma estrela octogonal tremeluze na manhã

Como uma estrangeira a visitar o impossível

Encontro de dois sóis no espelho do céu

De uma boca que aparece no retorno da noite.



Como é bela! Redonda amarela semicoberta,

Sempre possível quando não há mais que o som

De uma orquestra e o barulho do teclado

Da máquina de escrever o surgimento da lua.



Revoada de cisnes brancos e negros complementam

O fechamento do círculo em torno ao amado rei

De dez cabeças e vinte braços que seguram o globo

Do amor preparado com os estigmas da rosa branca.



No semáforo das atenções desperta um oásis verde

No linotipo de uma sala situada nas primícias

De uma dor indesejada em sonhos.

Na quarta-feira vou à ginástica funcional do porvir.

25/07/1986

 



PÓS

Há de ser
Pós!


Pós qualquer coisa.
Pós moderno.
Pós wave.
Pós punk.
Pós dark.


Pós pós. Pós o diacho.
O escracho.


Pós amanhã
e depois do amanhã.




Às favas com as lições
de penetração nas palavras,
salvaguardas dos poemas.




Pós!


Pós amor.
Pós alegria.
Pós pós.
Pós heresia
e melodia.




Pós Andrade
o desvairado.
Pós metrado
e sonetado.




Pós!


Pós concreto.
Pós espelho.
Pós avesso-direito.
Pós inconsciente.




Há de ser Pós!


Pós BESTA QUADRÚPEDE DO INCONSCIENTE.

07/07/1986


CONTINUIDADE

 

Eis-me novamente em tuas mãos – POESIA

a buscar a quinta essência

do AMOR e da CIÊNCIA.

 

Bailo meu corpo em résteas de luz

e me banho na chuva dos tempos.

 

Faço um poema à poesia oceânica dos meus afetos

e reparto meus beijos aos deuses do agora.

 

Meu amor já é leve como a bruma

e em espumas tripartidas

entrego-me à alma.

 

A criação transparece em ilusões.

 Realizo minhas núpcias na fonte branca.

 

Nada é absolutamente real

quando crianças brincam por perto.

 

Movimentos lúcidos levam minhas pernas

e se apaga o passado que nunca existiu.

10/03/1986

 

Paisagem cósmica

 

São golfos aparecendo atrás das nuvens

e um condor aproxima-se rapidamente

da pergunta irrespondível de Charles, o músico.

 

Abre-se uma planície isenta de consumações

e o condor aterra perto da planta fluorescente

das respostas contidas em corpo cristalino.

 

As cores são de um ramo de flores do campo

trazidas pelos ecos das borboletas de veludo.

O condor dorme cansado da viagem pelo concreto.

 

A paisagem move-se e surge uma elipse

que carrega consigo os sonhos dentro dos sonhos

e o condor fica preso ao sarcófago do tempo.

 

A paisagem retorna ao sossego da ausência do invasor

e a terra traga para dentro de si o corpo do pássaro.

Tudo é igual a antes do surgimento do primeiro homem.

25/07/1986

 

 

COMPACTO

 

FORA                                                                  ESTÁ

 

O

ESPAÇO

 

ESTÁ                                                                   DENTRO

 

O

COMPASSO

 

FORA                                                                   ESTÁ

 

O

SIDERAL

 

ESTÁ                                                                   DENTRO

 

O

NATURAL

 

O                                     NATURAL                    ESTADO

 

DO

ESPAÇO

SIDERAL

COMPACTUA

DENTRO E FORA

03/07/1986

 

QUADRILÁTERA

 

Estive no Norte de mim.

Grinaldas vermelhas fugiram do vaso,

trouxeram-me um baú antigo pintado de púrpura.

 

Cheirei o alecrim perto do Rio Amarelo,

contive-me num espaço do sol

e se esparramaram búzios nos lençóis.

A sorte foi lançada: viver ou morrer a morte de mim!

 

No Sul as águas são mais claras,

os animais perpetuam-se em espécies

e girassóis dourados miram meus olhos.

 

Miríades de formas estabelecem arcos de luares.

Meus braços anseiam por liberdade.

Caracóis empregam-se nos buracos.

Minha mentalidade sulina ameaça escapar no Sul de mim.

 

A Leste ouço canções remotas desencravadas das rochas,

visito os templos proibidos às mulheres,

desrespeito todas as ordens metálicas

 

e invado as regiões recônditas a passos calmos.

Ultrapasso o silêncio. 

Celestes são as marcas dos córregos nativos.

Permito-me atirar a flecha ao alvo distante.

Acerto, a Leste, o concerto de Pan.

 

Renasço, faço aço dos meus traços, Oeste de mim!

Oeste! Chego como o trovão a estrondar os milagres.

No sempre retornam palavras marginais.

 

Tragante fumaça envolve meu corpo. Envolvo a fumaça.

Expiro tranquila a internação da luz.

Oeste! Oeste! Bravia desbravo-te com minhas mãos

qual manto emplumado a agitar retornos de partidas.

                                                                                     23/01/1986

 

ATREVIMENTO

 

Ousei penetrar ângulos secretos,

vales rochosos,

cavernas escuras,

até as profundezas das águas represadas.

 

Fui recebida com a frieza

de uma montanha chinesa,

altiva e soberana

porque assim nasceu.

 

O sol-verão-coração foi pouco

para o gelo derreter,

solidificado que está

por anos de orgulho viril.

 

A solidão não incomodou

 e as ausências também não.

 

Não quero um mestre.

Não quero ir para o leste.

 

Quero a voz doce,

os olhos verdes,

o teu olhar fugidio.

 

Não te quero ator,

Não te quero pintor.

 

Te quero na impermanência das coisas,

na minha falta de paciência,

na labuta diária,

na irritação,

na tensão diafragmática,

na ameaça de braveza,

no teu bico de zanga,

na tua enorme chatice,

no teu quase cair da cadeira

diante da palavra mãe.

 

Não te quero santo,

Não te quero diabo.

Te quero homem.

Te quero jovem,

 

com manhas e artimanhas,

sem artes finais,

assim, com teu ar de fatal,

com um certo jeito de quem

não está olhando.

 

Não te quero vidente,

Não te quero sempre presente.

 

Te quero nu,

te quero cru,

sem poder

e sem vintém.

Empoeirado,

cansado,

desarrumado,

esvaziado,

Agoniado.

 

Não te quero preso.

Não te quero leso.

 

Te quero louco,

bobo, oco,

sem óculos, sem lógica,

sem compasso, sem raça,

sem cor, sem metas,

sem eira, nem beira.

 

Não te quero com chama.

Não te quero com drama.

 

Te quero com carinho,

com lentidão, sem razões,

com atenção, afeto,

sossego de alma.

 

Te quero sentir

tudo o que tiver de sentir,

com toda minha coluna vertebral,

                                ereta, inclusive nos vendavais.
                                                                                    
                                                                                Janeiro/1986


                                      Contexto                      

No dia em que morri

nasceu um canto no colibri

e verdes luas sob o chão.

 

O sol ficou vermelho

e a terra carmesim,

As estrelas chamas rubras

num céu cor de lis.


Nesse dia ouviu-se um grito

perdido e sem fim

no auge de um motim.

 

As pedras tingiram-se de sangue,

                                a morte, viúva alegre,

dançou com os serafins.

                                               20/11/1986


                        

 

Agora

 

Todos os símbolos decifrados,

todas as mortes revisitadas,

todos os heróis enterrados

no fundo da minh’ alma.

 

Agora, apenas os atropelos do caminho,

meus apelos somente humanos,

meus ideais a lutarem no concreto.

 

Despedida dos meus sonhos.

 

Todos os mitos encarnados,

todas as fantasias desmascaradas,

todas as farsas desenganadas

nas palavras da minha voz.

 

Agora as dificuldades do coração,

a busca do amor nas mãos,

a verdade limpa e clara do cotidiano

no presente dos afazeres.

 

Todas as águas lavadas,

todas as represas abertas,

todas as luas reunidas

no espaço de nós dois.

                             29/11/1986

 

 

S O C I A L M E N T E 

 

                                                                                       SOCIOMETRIA

                                                                                                              na cabeça

                                                                         afirma

                                                                                     a cartada final

                                                                                           do APOCALIPSE

                                        DESCOMUNAL

                                                                                                   COM   -  PANHEIROS

 

                                        MARRRRRCH!

                               

                                                                       OUVI!

 

Os astros estão contra

                                          a desorganização

                          da paranoia geral

 

ORGANIZEM POR FAVOR

                            O MEDO!

 

                                                   AAAAAA  - TENNNNNNNNNNNNNN  - “SÃO”!

 

                                             1 – 2 M 1 – 2 E 1 – 2 – D 1 – 2 O

 

                                        M  

                                         

                                       D

                                         O  

 

 

                                       COOOOOMMMMMM – Pà HIAAAAAAAAAAAA 

 

                                                                                   REE – LA – XAAAAAAAAAAR!  

 

CRIANÇAFELIZFELEIZABRINCAROHMEUBOMJESUSQUEATODOSCONDUZ

 

O GRÃO – VIZIR DESTE RICO E PRÓSPERO BOREQUIM DECLARA:

 

DE AGORA EM DIANTE.................................

 

                 VIVA A BALBÚRDIA!

 

                                          VIVA!

 

                               SEEEENNNNNTIDO!                                                                                                        

 

                                                                                                                                               FOGO!

 

FOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFOGOFO

                                                                                                                                                                                                                                        11/12/1986

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...