ATREVIMENTO

 

Ousei penetrar ângulos secretos,

vales rochosos,

cavernas escuras,

até as profundezas das águas represadas.

 

Fui recebida com a frieza

de uma montanha chinesa,

altiva e soberana

porque assim nasceu.

 

O sol-verão-coração foi pouco

para o gelo derreter,

solidificado que está

por anos de orgulho viril.

 

A solidão não incomodou

 e as ausências também não.

 

Não quero um mestre.

Não quero ir para o leste.

 

Quero a voz doce,

os olhos verdes,

o teu olhar fugidio.

 

Não te quero ator,

Não te quero pintor.

 

Te quero na impermanência das coisas,

na minha falta de paciência,

na labuta diária,

na irritação,

na tensão diafragmática,

na ameaça de braveza,

no teu bico de zanga,

na tua enorme chatice,

no teu quase cair da cadeira

diante da palavra mãe.

 

Não te quero santo,

Não te quero diabo.

Te quero homem.

Te quero jovem,

 

com manhas e artimanhas,

sem artes finais,

assim, com teu ar de fatal,

com um certo jeito de quem

não está olhando.

 

Não te quero vidente,

Não te quero sempre presente.

 

Te quero nu,

te quero cru,

sem poder

e sem vintém.

Empoeirado,

cansado,

desarrumado,

esvaziado,

Agoniado.

 

Não te quero preso.

Não te quero leso.

 

Te quero louco,

bobo, oco,

sem óculos, sem lógica,

sem compasso, sem raça,

sem cor, sem metas,

sem eira, nem beira.

 

Não te quero com chama.

Não te quero com drama.

 

Te quero com carinho,

com lentidão, sem razões,

com atenção, afeto,

sossego de alma.

 

Te quero sentir

tudo o que tiver de sentir,

com toda minha coluna vertebral,

                                ereta, inclusive nos vendavais.
                                                                                    
                                                                                Janeiro/1986

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