1999
Adaptação
para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por
Jorge Amado (1912 - ), Editora
Record, 64a edição, Rio de Janeiro, 1986.
A peça
será montada e representada pelos
adolescentes em situação de risco pessoal e social e equipe de educadores da Casa do Trem – SEDROG, da Secretaria de
Ação Comunitária e Cidadania/PMS.
Adaptação de Ricardo Vasconcelos e Maria José F. Goldschmidt.
1a Cena
ASSALTO
(Pedro Bala e Senhor da Platéia fala para todos não
resistirem pois é um assalto. O Bando está entre as pessoas na platéia
(artistas). Bando (elenco).
Pedro Bala – Fica quieto! Não se mexa pois tu tá
rendido velho. Aqui ninguém se meta
a querer ajudar, senão os Capitães manda bala na cabeça. Não é manos?
0S COMPONENTES DO BANDO LEVANTAM OUTRAS VÍTIMAS)
DESENHISTA – É isso aí! Pedro Bala. Bota banca
nessa sociedade burguesa.
GATO – Oh, o cara aí falô bonito!
PEDRO BALA – Vou botá mesmo. Viu, velho cagão!
SENHOR – Pelo amor de Deus, não faça nada
comigo, que lhe dou tudo o que você quer, mas não faça nada para todos nós.
MULHER – É moço, por favor, nós não falamos
nada. É só pedir que a gente dá.
(CONGELA A CENA)
Narrador: Vou contar a vocês
A história de uns meninos
Muito valentes.
Uma história de cais,
Saveiros e mar
Meninos sujos,
Artistas, malandros,
Sozinhos no mundo,
Sem mãe, nem pai.
DESENHISTA – Olha aí! A mulher também fala. Quem mandou abrir a boca? Fica quieta! Quem fala aqui somos nós.
MULHER – Meu filho, tenha piedade... nós não fizemos nada.
DESENHISTA – Cala a boca! Velha!
PEDRO BALA – Ninguém se mexe, e se falá, morre. Vão passando as bolsas. (MÚSICA DE SIRENE).
POLICIAIS – Parados aí. Polícia.
TODOS – Sujou. Água Pista.
(RAP DO INÍCIO DA ÓPERA, BANDO DIRIGINDO-SE AO PALCO).
VOZ “em OFF” – Manchetes dos jornais:
A CIDADE ESTÁ INFESTADA POR
CRIANÇAS QUE
VIVEM DO FURTO
ONTEM HOUVE MAIS UM ASSALTO
CASO DOS CAPITÃES DE AREIA “É CASO DE
POLÍCIA”, DIZ JUIZ
DIRETOR DE REFORMATÓRIO VIVE BÊBADO E
BATE
EM CRIANÇAS, AFIRMA
MÃE DE
ADOLESCENTE
PADRE CONFIRMA DENÚNCIAS SOBRE DIRETOR
DIRETOR NEGA ACUSAÇÕES
2a Cena
PEDRO BALA – E aí... conseguimos escapar e os
tiros ficaram para trás.
GATO – É... só que pegaram o menor. A esta
hora ele deve estar comendo o pão que o diabo amassou.
3a Cena
POLICIAL – Qual teu nome?
MENOR – Menor.
POLICIAL – Eu perguntei o nome criatura e não o
apelido.
MENOR – José Roberto dos Santos.
POLICIAL – Quantos anos você tem?
MENOR – 13 anos.
POLICIAL – Então, já está pronto para pagar o
estrago que fizeram hoje.
MENOR – Mas eu não fiz nada. Eu sou inocente.
POLICIAL – Pois não foi o que vi. Você e
aquele bando de garotos do tal Pedro Bala roubando o pessoal todo daqui desta
área. Alguém irá Ter que pagar por isso, e esse alguém só poder ser
você.
MENOR – Por favor, não me bate...por favor.
(Escurece. Somente barulho de pancadas e gemidos abafados)
Narrador:
Naquele tempo...
a polícia batia nos meninos,
chutava, cuspia, chicoteava.
Não adiantava menino gritar,
Menino chorar, menino calar.
Menino aprendia a odiar.
Menino aprendia a matar.
4a Cena
DESENHISTA – Pedro Bala, tem um cara aí mandando
dizer que
Naquela área quem manda é Ele.
PEDRO BALA – Que área?
GATO – O local da batida de hoje.
PEDRO BALA – Ah é?! Então manda ele entrar.
MEU REI – Quem é o tal de Pedro Bala?
PEDRO BALA – Sou eu mesmo, porque?
MEU REI – Então se prepara que vamos tirar a
limpo.
PEDRO BALA – Então, venha!
5a Cena
(CAPOEIRA)
(Congela em cena da luta)
Narrador: A luta que é dança
Mais que para defesa
Só mostrava a beleza
Daqueles meninos valentes.
Quando era para ataque
Servia à vida. Senão a morte
Com
sua foice e seus dentes
Envolvia os meninos em suas
garras
E na grande e escura noite
Carregava menino e o jogava ao
mar.
(Somente o som de um berimbau choroso).
6a Cena
(NO CENTRO DO PALCO)
PEDRO BALA – E aí cara. Você é dos nossos, não
podemos tirar a limpo com uma mano.
MEU REI – É, só que quase nos machucamos, e
este jogo é sério, se bobear dança.
PEDRO BALA – Como você chama?
MEU REI – Prá vocês, Meu Rei, ao seu dispor. E
estes aqui são galo e Gogó.
DESENHISTA – Gogó?
GATO – Por que esse nome?
MEU REI – Por que ele é o nosso garganta de ouro
do bando.
GATO – É mano, abre a boca.
DESENHIISTA – Canta prá celebrar os parceiros dos
Capitães da Areia.
7a Cena
(RAP – COREOGRAFIA DOS CAPITÃES)
8a Cena
(BORDEL)
GRANDE PROSTITUTA – Meninas... Meninas... Meninas... se
preparem, pois estamos quase na hora de abrir o estabelecimento. Quero todas
lindas, cheirosas e prontas para a diversão.
MENINA 1 – Mas, nós estamos prontas!
MENINA 2 – Só falta abrir a porta.
MENINA 3 – E começar a música.
9a Cena
(CANTORA – GRUPO DE DANÇARINAS).
10a Cena
(NA MESA GRANDE PROSTITUTA E UM TURISTA).
Narrador: Essa é Dalva
A mais amada.
Dos
meninos
A encantada.
Mas foi Gato
quem a amou.
Noite após noite
Se enfeitou.
Dalva o apreciou
Quando um flautista
A abandonou.
11ª Cena
DALVA/GATO
Narrador: Desde então,
toda meia-noite
Gato saia perfumado, todo penteado
Enquanto dormiam os meninos
E o dia ensaiava seu
crepúsculo.
Na hora em que, dos barcos,
desciam à terra
Os marinheiros com passos
gingados de mar,
E dos cachorros vagabundos
à lua ladrarem,
Gato ia nos seios de
Dalva se aninhar.
12a Cena
RUA
DESENHISTA/MENOR/ASSALTANTE
FOGEM
13a Cena
IGREJA
PADRE/MENOR/ DESENHISTA SAI
Narrador: Ah!
Padre tão bondoso!
Tinha pouco estudo e enorme
coração.
Amava os meninos. Cuidava dos
meninos.
Em muitas horas, era pai e mãe
dos capitães.
Tinha uma batina remendada
(Roupa dos padres antigamente)
Brigava com o diretor do
orfanato
Porque ele só maltratava os
meninos pobres
Até dinheiro da igreja pegou
certa vez,
Só para girarem os meninos no
carrossel
E poderem sonhar que
eram as luzes de Deus.
14a Cena
PRAIA
PEDRO BALA/NAMORADA
Narrador: Dora era diferente e Pedro a amava.
Dora era menina ainda, perdera
pai e mãe.
De doença ruim. Muita gente estava
morrendo.
Muita gente pobre estava
morrendo.
Ninguém gostava de filho de
bexiguento.
Porque também podiam estar
doentes.
Se estivessem, eram mandados
embora da cidade
Para morrerem bem longe e não passarem a
doença.
Mas Dora era diferente e não
ia morrer.
Não agora, que Pedro a amava
como mãe e noiva.
Não agora, que Desenhista,
secretamente, a amava.
Não agora, que os meninos do trapiche a
amavam.
Dora mãe, que costurava, Dora
irmã, companheira.
Dora noiva. Doralinda,
Doramada, Mãezinha boa.
15a Cena
MOCÓ
PLANO COM PERNINHA
GATO/MENOR/PERNINHA
16a Cena
IGREJA
SANTA CEIA
(ARREPENDIMENTO) PADRE/BANDO DOS CAPITÃES
(Música de celebração)
Narrador: Pai
Nosso que estais no céu,
Atotô! Omulu-Obaluaiê!
Cura nossas dores! Ameniza as
cicatrizes.
Santificado seja o vosso nome
Assim na terra como no céu.
Ogunhê! Ogum! Filho de Oranhiã
e Yemanjá!
Irmão de Exu! A vós oferecemos
a feijoada,
Guerreiro implacável,
ensina-nos a lutar,
Somos teus filhos, adoramos dançar.
O pão nosso de cada dia nos
dai hoje.
Perdoai as nossas ofensas
assim como
Perdoamos àqueles que nos
ofendem
(isto é, tentamos perdoá-los)
Odiá’! Odô-fê-iabá! Minha
mãe Yemanjá!
Espalhai seus cabelos sobre o
mar
Não nos deixeis cair em
tentação,
Livrai-nos de todo o mal,
Mergulhai-nos em tuas
águas,
Amém!
17a Cena
URBANO
SENHORA DA MANSÃO/PERNINHA
Narrador:
Um dia, Perninha se fez de bonzinho
E bateu na casa da Senhora da
Mansão.
Ouvira dizer que lá tinha
muito ouro
E logo pensou que seria útil
aos Capitães
Um pouco daquela riqueza e lá
se enfiou.
A Senhora da Mansão, entre
lágrimas,
Acolheu aquele menino que lhe
pedia abrigo.
Não lhe pediu amor, mas amor
ela lhe deu.
O mesmo amor que dera ao filho
já morto.
Não lhe pediu cama macia,
roupas limpas,
Mas comida na sala de jantar,
roupas limpas,
Que um dia fora do filho já
morto, ela lhe deu.
O coração de Perninha foi
ficando apertado.
Doía-lhe a traição, mas no
fundo sabia
Que aquele mundo não era para
ele.
Não podia esquecer as prisões,
Os soldados que o surraram...
Não podia esquecer que era um
abandonado!
A Senhora da Mansão o chamava
“meu filho”,
Mas Perninha, cada vez mais
assustado,
Não podia permitir-se ser
amado,
Permitir que fossem bons para consigo.
Já estava decidido: seria
sozinho e seu ódio
Alcançaria a todos, homens,
mulheres,
Brancos e negros, ricos e pobres.
18a Cena
MOCÓ
(Reflexão de MENOR sobre o plano com
Bando e PEDRO BALA)
19a cena
REFORMATÓRIO
MANCHETE DO JORNAL:
PRESO O CHEFE DOS
“CAPITÃES DA AREIA”
Narrador: Foram
cinco: Pedro Bala, o chefe,
Filho de antigo grevista, morto
na luta.
Sua Dora, noiva muito amada,
Perninha, Desenhista e Gato,
que fugiram,
Após exímia artimanha de Pedro
Bala
Confundindo o guarda que o
segurava.
Dos cinco, dois ficaram:
Dora para o orfanato e Pedro
Bala
Para o terrível reformatório.
Muitos dias e muitas noites
Pedro Bala
Ficou jogado num cubículo mal
cheiroso,
Passou sede, passou fome,
passou frio,
Mas em Dora só pensou. Dora, Dora!
Sentia que Dora ia partir e
chorava.
Dora, agüenta, vou te salvar,
desejava.
Por mais que o espancassem,
Não falava onde era o trapiche,
O esconderijo dos “Capitães da
Areia”.
Orgulhava-se de si mesmo, era o
CHEFE,
Não trairia jamais seus irmãos,
companheiros,
Única família que tivera desde
a morte do pai.
Dora tremia, tinha febre todos
os dias.
Queria ver o noivo, apenas uma
vez mais.
Um dia lhe chegou um recado:
Pedro Bala
Estava a caminho. Pois o danado
fugira.
Correndo pela ladeira, iam os
“Capitães”.
Dora pela mão de Pedro
levada, feliz,
E a febre, ficou esquecida nas
mãos
Da mãe de santo que tentava
enxotá-la.
O silêncio do cais acolheu os
noivos.
Deitados lado a lado, Dora e
Pedro.
A menina queria o amor do
menino.
Pedro angustiava-se com a
febre,
Mas ambos sabiam que descera
A longa noite que a tudo "enubrecia".
20a Cena
VOCAÇÕES
Narrador: Desenhista perdera
Dora.
Dora, sua noiva em segredo.
Dora que nunca fora dele.
Dora que para sempre viveria
Nas suas telas, nas tintas,
Nos sentimentos bons de menino
Revelados no Rio de Janeiro.
Pedro ia ficando, alargando
seus dias
nas ruas, já marcado no peito,
de amor.
Passou inverno, passou verão,
outro inverno,
As chuvas, o vento. Pirulito
virou padre,
Deixou de furtar. Padre José
ganhou paróquia
No cangaço. Pedro ainda se
deixava ficar.
Pensava no padre. Pensava em
Pirulito.
Só bondade não basta,
refletia. Nem ódio.
Nem o ódio, nem a bondade, Só a luta.
21a Cena
MAIS MUNDO
Narrador: Gato se fora num trem, com Dalva.
Seria vigarista em Ilhéus,
enricaria.
Todo aprumado, tal pavão, de
anelão.
Até que um dia, a polícia lhe pôs as
mãos.
Mas Volta Seca, “sobrinho de
Lampião”,
No cangaço cumpriu seu
destino: matar.
Uma fera, feita de puro ódio
pelos soldados.
Trinta anos de prisão pegou.
Pobre menino!
Ah! Perninha! Seu ódio pelo
mundo, pela vida,
Por si mesmo, nunca lhe
permitiu a paz.
Perseguido pela polícia, após
assalto do bando,
Com os guardas nos calcanhares,
correndo,
Usou sua última arma, chegou à
beira do morro
E como um trapezista de circo,
atirou-se de costas.
O espaço vazio o acolheu na escuridão da morte.
22a Cena
COMPANHEIROS
Narrador: Pedro Bala sentiu crescer o desejo da
luta.
Não mais assaltos, nem fugas
da polícia.
Pedro Bala queria ajudar seu
povo. Lutar.
Não mais capoeira com líderes
de bandos.
Agora queria ensinar o desejo
da liberdade.
Foi lutar com os estivadores.
Como seu pai.
Liderava ainda os “Capitães da
Areia”.
Mas era uma luta
organizada. Para os pobres.
Era a revolução. Um dia
recebeu ordens:
Que outro liderasse os
“Capitães da Areia”.
Ele iria organizar os
Maloqueiros de Aracaju.
FOI!
(JORGE AMADO)
Cenário: Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças
dormem.
Crianças: Pedro Bala
(Ricardo) e Raimundo (Luiz Carlos)
(Fundo musical: Dorival Cayme)
1º Narrador:
(Cláudia) Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras
pedras dos alicerces do trapiche as
ondas ora se rebentavam fragosas, ora vinham se bater mansamente. A água
passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora,
iluminadas por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros
carregados, alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura
das travessias marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nessa ponte
de tábuas, hoje comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério
do mar-oceano, as noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras,
daquela cor misteriosa que é a cor do mar à noite.
2º Narrador: (Périgles) Hoje
a noite é alva em frente ao trapiche. É que na sua frente se estende agora o
areal do cais do porto. Por baixo da ponte não há mais rumor de ondas. A areia
invadiu tudo, fez o mar recuar de muitos metros. Aos poucos, lentamente, a
areia foi conquistando a frente do trapiche. Não mais atracaram na sua ponte os
veleiros que iam partir carregados. Não mais trabalham ali os negros musculosos
que vieram da escravatura. Não mais cantou na velha ponte uma canção, um
marinheiro nostálgico. A areia se estendeu muito alva em frente ao trapiche. E
nunca mais encheram de fardos, de sacos, de caixões, o imenso casarão. Ficou
abandonado em meio ao areal, mancha negra na brancura do cais.
3º Narrador:
(Zezé) Durante anos foi povoado
exclusivamente pelos ratos que os atravessavam em corridas brincalhonas, que
roíam a madeira das portas monumentais, que o habitavam como senhores
exclusivos. Em certa época um cachorro vagabundo o procurou como refúgio contra
o vento e contra a chuva. Na primeira noite não dormiu, ocupado em despedaçar
ratos que passavam na sua frente. Dormiu depois algumas noites, ladrando à lua
pela madrugada, pois grande parte do teto já ruíra e os raios da lua penetravam
livremente, iluminando o assoalho de tábuas grossas. Mas aquele era um cachorro
sem pouso certo e cedo partiu em busca de outra pousada, o escuro de uma porta,
o vão de uma ponte, o corpo quente de uma cadela. E os ratos voltaram a dormir
até que os Capitães da Areia lançaram as suas vistas para o casarão abandonado.
4º Narrador:
(Arlindo) Nesse tempo a porta caíra para um
lado e um do grupo, certo dia em que passeava na extensão dos seus domínios
(porque toda a zona do areal do cais, como aliás toda a cidade da Bahia,
pertence aos Capitães da Areia), entrou no trapiche.
Seria bem melhor dormida que a pura areia,
que as pontes dos demais trapiches onde por vezes a água subia tanto, que
ameaçava levá-los. E desde essa noite uma grande parte dos Capitães da Areia
dormia no velho trapiche abandonado, em companhia dos ratos, sob a lua amarela.
Na frente, a vastidão da areia, uma brancura sem fim. Ao longe, o mar que
arrebentava no cais. Pela porta viam as luzes dos navios que entravam e saíam.
Pelo teto viam o céu de estrelas, a lua que os iluminava.
Crianças acordam
e movimentam-se. Tiram objetos de um saco. Decoram o ambiente.
1º Narrador:
(Cláudia) Logo depois transferiram para o
trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do dia lhes proporcionava.
Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais estranhas, porém, que
aqueles meninos, moleques de todas as cores e de idades as mais variadas, desde
os nove aos dezesseis anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por
debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão
uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos
puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham
das embarcações...
É aqui
também que mora o chefe dos Capitães da Areia: Pedro Bala.
Pedro Bala
(Ricardo): Desde cedo fui chamado assim, desde
cinco anos. Tenho quinze anos. Há dez que vagabundeio pelas ruas da Bahia.
Nunca soube quem foi minha mãe, meu pai morreu de um balaço. Fiquei sozinho e
resolvi passar anos conhecendo a cidade. Conheço todas as ruas e todos os
becos. Não há venda, quitanda, botequim que eu não conheça. Quando me juntei às
crianças abandonadas da cidade, aos Capitães da Areia, o chefe era Raimundo, o
Caboclo, mulato avermelhado e forte.
Raimundo
apresenta-se.
2º Narrador (Périgles):
Não durou muito na chefia o caboclo
Raimundo.
( Ao som de um berimbau Pedro Bala e
Raimundo brigam. Raimundo tem uma navalha na mão. Corta o rosto de Pedro Bala.
Lutam capoeira. Pedro Bala é bem mais ágil. Ganha a luta). Tempo: 03 minutos.
2º Narrador:
(Périgles) Raimundo deixou não só a chefia dos
Capitães da Areia, como o próprio areal. Engajou tempos depois num navio.
3º Narrador:
(Zezé) Todos reconheceram os direitos de
Pedro Bala à chefia., e foi dessa época que a cidade começou a ouvir falar dos
Capitães da Areia, crianças abandonadas que viviam do furto. Nunca ninguém
soube o número exato dos meninos que assim viviam. Eram bem uns cem, e desses
mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho trapiche.
Vestidos de
farrapos. Sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e fumando
pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a conheciam
totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.
A Noite (Café) e o Dia (Jaime)
circulam em torno de Pedro Bala. As luzes piscam. Tempo: 30 segundos. Pedro
Bala agora é adulto. O personagem se transforma, coloca uma boina. Um lenço
vermelho.
4º Narrador: (Arlindo) Pedro Bala agora comanda uma brigada de
choque formada pelos Capitães da Areia. O destino deles mudou, tudo agora é
diverso. Intervêm em comícios, em greves, em lutas obreiras. O destino deles é
outro. A luta mudou seus destinos.
Uma voz, distante, chama: “Companheiros, chegou a hora...”
(Ulisses). A voz vai aumentando aos poucos, ao som de um atabaque. (Três
vezes).
O atabaque continua tocando. Um a um
vamos chamando por Pedro Bala:
•
Pedro
Bala... (Cláudia).
•
Pedro
Bala... (Arlindo).
•
Pedro
Bala... (Zezé).
(Pedro
bala vai se alegrando.)
•
•
Pedro
Bala... (Périgles).
•
Pedro
bala... (Café).
•
Pedro
Bala... (Jaime).
(O
atabaque cada vez mais forte, pára de repente).
De punhos levantados todos falam:
Liberdade! Liberdade! Liberdade! Liberdade! Liberdade! Liberdade!
A voz: (Ulisses) “Companheiros, vamos pra luta...”
Pedro Bala e todos os narradores partem.
5º Narrador: (Luiz Carlos) No ano em que todas as bocas foram
impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma noite de terror, os jornais,
(únicas bocas que ainda falavam) clamavam pela liberdade de Pedro Bala, líder
da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
E, no dia em que ele fugiu, em
inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se iluminaram ao saber da
notícia. E, apesar de que lá fora era o terror, qualquer daqueles lares era um
lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a revolução é
uma pátria e uma família.
(Entra uma música cantando as
belezas da Bahia.)
TEMPO TOTAL: 15 a 20 minutos, no
máximo.
MATERIAL:
Tecidos, amarelo e preto (Dia e
Noite);
Músicas (CDs);
Aparelho de som;
Berimbau;
Atabaque;
Boina;
Lenço vermelho;
Objetos variados (telefone, abajur,
por exemplo).
Som: Jackson