Que escuro é esse
que falas?
De quais teias
te refazes?
Esse escuro que falas
é branco não vês?
Que sonhos te esfrangalham?
Esse sonho teu
não existe.
Levanta-te!
Sente, é o vento
ou o tempo?
26/09/1987
Nem todas são assim.
Algumas são setas de versos
no estômago,
outras são restos de
lembranças na memória.
Partes perdidas das conversas,
retratos batidos de repente.
Todas impelem para não sei
onde,
me consomem.
Nem todas são românticas,
sentidas, feitas de amor.
Concretas, bizarras, tênues,
irônicas,
não são todas assim.
Algumas são feitas por mim,
outras se espalham sozinhas.
Recolho-me, entrego-me a
elas
e fazem o que querem sem
mim.
Algumas se espremem para
fora.
Apertam, trucidam, massacram,
palavras pensadas
que desembocam em outras.
Estão todas aí. O tempo todo
prontas.
Não são todas jogos do
saber.
Opostos.
São de caminhos abertos. De
leite,
Résteas de futuro.
S A G R A Ç Ã O
Sagra-se a Primavera!
Esmeraldina cambiante
a ruir cetros
de algas infames
nos anzóis das verdades.
Esperas de alfazemas,
nas ruas sem saídas.
Correntezas.
Sem partes com o mal
do país da Alvorada,
penetras gigantes alcovas
de claudicantes algozes.
Sagra-se a Primavera!
No corpo de vidro
de jovem infante
estardalhas brisas
nas redomas.
Sagra-se a Primavera!
Derramas dos teus olhos
pactos com guerreiros.
És virgem amante
e me transporto da escada
para o chão destes versos.
Roubo meteórico
do sangue de um touro
esquartejado pelas ninfas
afeitas às regalias
das fêmeas-objetos.
Sagra-se a primavera!
Esconda-me
na caverna do deus
Homem-Mulher.
Sagre-se Primavera!
1987
T A O
Eis que chega ao Ocidente o
TAO!
Racional!
E balança o coreto do Tal!
Racional!
Eis que os cientistas estudam
o TAO!
Racional!
E alimentam o tal do ego
Raciona!
E o Tal do TAO
faz tão grande confusão
que não se sabe mais Tal
aquele que adivinhou o TAO
no almanaque
ou em textos raros
esotéricos.
Então o Tal muda,
compra incenso,
faz jejum,
abstinência,
Hare! Hare!
Faz as malas
e para o Oriente se orienta.
Tal qual monge budista
mascara um risinho
permanente
e cínico nos lábios.
Perpetua a miséria
Racional!
O TAO fica representado
nas paredes cabalísticas
do apartamento citadino
a juntar o pó dos dias
racionais!
1987 ?
O M U R
O
Sempre que o vento balança
as folhas da goiabeira
e espalha a fumaça do meu
cigarro
sou tomada por um impulso
vago
de contemplar o tempo parado
e deixar nascer seja o que
for
que se “embriona” no meu
peito.
O muro da minha casa
picha-se
não sei com quantas novas
frases e nomes
e trazem a cada amanhecer
nova surpresa.
Alguém, com probabilidade de
estar a adolescer,
pintou com spray preto um
LUCAS no muro para,
no dia seguinte, outro
alguém, com provável senso infantil,
fechar o “u” com tinta verde
e LUCAS virou LOCAS.
Ao invés de me aborrecer com
o mural
que se oferece livre aos
artistas da noite,
fico a observar as mutações
do muro da minha casa.
Gosto tanto deste lugar
que deixo a porta sempre
aberta
às crianças dos vizinhos.
Entram e brincam com bonecas
e fantasias.
Quando elas se vão, a casa
toda fica cheirando
o cheiro quente dos seus
corpos livres
e fico a pichar em paz no
papel
as frases que retiro do
vento que me contempla.
1986
Minhas mãos cantam cantos de
alegria.
Filha amo tuas manhas de
andorinha e euforia.
Minha mina de sonhos,
menina linda de verdades,
mundo aberto nos meus olhos.
Curo tuas febres com o canto
das minhas mãos.
Menininha doce e apimentada,
caprichos dos oito anos,
a ti confio a vida
que descubro todos os dias
enquanto vives descobertas
que não imagino.
17/08/1987
ARQUIMÚLTIPLO
O homem que amo
é arquiteto
(também é músico).
Mais arquiteto do que músico
ou mais músico do que
arquiteto.
Não sei.
Só sei que quando estamos
juntos
arquiteta sem o perceber,
talvez,
tamanha construção no meu
ser
que nunca sou a mesma ao
amanhecer.
Wagneriano por essência,
Vivaldi na aparência,
junta os dois e compõe um
carnaval
que ameaça explodir com meus
tímpanos,
embora, na superfície,
a Sinfonia apresente-se
mansa.
Quando resolve inverter a
ordem
meu corpo é seu papel
vegetal
para elaborar,
vagarosamente,
a nova estrutura que irá
plantar no amanhã.
Sou a planta que se lhe
afigura
mais adequada na
correspondência dos seus dias.
No entanto, há uma fuga
melodiosa
que lhe serve de esquadro
nas noites,
para que crie uma alvorada
a revoar notas em seu
violino
e solidificar no compasso
dos seus beijos.
Além da arquitetura e da
música,
pinta umas telas (ou
pintava).
Inventou agora estudar
musicoterapia
para combinar
com as artes que já tem.
Afora outras coisas mais,
possui talento também para
uma boa prosa
com seja quem for, seja
noite ou seja dia.
Pensam que já acabou?
Não! É tão versátil o homem
que eu amo,
que descobriu a arte
de modificar o espaço e o
tempo,
para além das paredes e das
horas
quando resolve ficar só.
O homem que eu amo me dá
muito trabalho
pois, para encontrá-lo,
antes é preciso consultar os
oráculos,
verificar a posição da lua,
ler as cartas do tarot,
jogar búzios, pedir
permissão ao santo do dia,
tomar banho de ervas, UFA!
Até o pé com o qual me
levantei preciso lembrar.
Cumpridas as obrigações aos
deuses todos
encontro o arquiteto tocando música,
a pensar em pintar a musicoterapia da prosa
e, não quero nenhum deles.
Viro-lhe a prancheta do
avesso,
arremesso seu violino ao ar,
parto a tela em mil pedaços,
jogo seus livros no lixo,
expulso os tagarelas da sala
e o tenho macio e gostoso
nos meus braços.
31/01/1987
P r o m e t e u
Meu corpo abriu-se de todos
os corpos
para receber teu corpo e
fazê-lo brotar
na alma da terra.
Livro-me do meu fogo
para que recebas do meu
ventre
o talismã da vida.
Coloco-me a teus pés
e recebo uma inundação de
horrores
para que te partas de mim.
Dança diante dos meus olhos
a chama perpétua que tu me
roubas
para iniciar-te nos
mistérios.
Levas-me a alma
e me deixas só e doente
queimando na febre
tua louca paixão.
11/01/1987
BRR...
BRR... BRR...
Sempre
à meia noite!
Na
hora das bruxas,
na
divisa do tempo,
na
lua alta é que vem.
O
MEDO! O MEDO! O MEDO!
Do
olho da bruxa,
do
bucho da noite,
do
luxo do ogro.
DA
GRUTA ESCURA!
Da
curva da cuca,
da
cuca da louca,
da
lula da lua.
DOS
SUBTERRÂNEOS GELADOS.
Da
sombra da esquina,
da
mulher traquina,
da
quina do dia.
DOS
ALICERCES FANTASMÁTICOS.
Da
estrutura caída,
da
candura perdida,
do
carrascal da vida.
18/07/1987
LENHA
Estilo novo
Vestido novo
Estrilo novo
Estrela ela
Estrala nela
Uma panela
Estranho ele
Extraio dele
Um verbete
Esgano lela
Esmurro lale
Dele dela.
Leda dale
Lele lela
Nela nele.
Estéril
Estéreo
Esterno.
Cadê a água?
O fogo apagou.
Cadê o fogo?
Lenha dale
Lela lelé
Nhanhanha.
Afogo
Sufoco
No oco ovo.
18/07/1987
T E R N U R A
Ternura na manhã tênue
de fim de outono nublado.
O sol descansa para o meu
gozo
e, alheio à minha vontade –
o dia.
Alheia estou aos meus
desejos
neste final dia de outono
que nada mais existe além da
tênue ternura
alojada no meu ser.
O meu ser é este dia
nublado no qual descansa o
sol
sua tênue ternura outonal.
1987
CONVITE
Um dia sonhei um
jantar,
fins de junho,
para ser mais exata.
Imaginei receitas
especiais
e me decidi pelas
polonesas.
Não as procurei
e nem sei o que se come
na Polônia
à beira do grande rio,
inteiramente polonês.
Sonhei-o polonês
por pura provocação.
À luz de velas, muitas,
para o candelabro de
oito braços
da Festa das Luzes.
Naturalmente que seria
um shabat,
para que fossem
recebidos os ancestrais.
Regado a vinho e óleo.
Vinho a combinar com o
prato,
óleo para lubrificar a
alma.
Lilíthico, talvez,
com uma enorme fogueira
no centro da sala
feita de papel crepom,
para não me incendiar
os dedos,
nem a casa.
Nossos nomes seriam
esquecidos
e o óleo também
serviria
a um novo batismo
e novos nomes.
Eu me chamaria de roCHA
e a ti te chamaria de
PRAnto.
Depois trocaríamos de
lugar
e eu seria PRAnto,
tu, roCHA.
Até que de tanto troca
troca
acabaríamos por nos
misturar
e viraríamos PRANcha e
tocha
Aí nos cansaríamos
e tudo ficaria
Roto e CHAto.
Só nos restaria dançar
Um tchá tchá tchá
e pronto: Pranto
deitar-se-ia na Rocha
seu corpo cansado
e as náiades
cobririam seu sono.
E pronto: Rocha
esqueceria seu Pranto
e descansaria seu copo
na noite acabada
e todos os verbos
do futuro passado
voltariam ao mundo das
ilusões
quietos e cientes de
não serem reais.
E pronto: eu retornaria
ao meu canto.
Foi um belo jantar
e esqueci de te
convidar.
31/07/1987
1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 - ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...