O  M U R O

 

Sempre que o vento balança

as folhas da goiabeira

e espalha a fumaça do meu cigarro

sou tomada por um impulso vago

de contemplar o tempo parado

e deixar nascer seja o que for

que se “embriona” no meu peito.

 

O muro da minha casa picha-se

não sei com quantas novas frases e nomes

e trazem a cada amanhecer nova surpresa.

Alguém, com probabilidade de estar a adolescer,

pintou com spray preto um LUCAS no muro para,

no dia seguinte, outro alguém, com provável senso infantil,

fechar o “u” com tinta verde e LUCAS virou LOCAS.

 

Ao invés de me aborrecer com o mural

que se oferece livre aos artistas da noite,

fico a observar as mutações

do muro da minha casa.

 

Gosto tanto deste lugar

que deixo a porta sempre aberta

às crianças dos vizinhos.

Entram e brincam com bonecas e fantasias.

Quando elas se vão, a casa toda fica cheirando

o cheiro quente dos seus corpos livres

e fico a pichar em paz no papel

as frases que retiro do vento que me contempla.

1986

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