CONVITE

 

Um dia sonhei um jantar,

fins de junho,

para ser mais exata.

 

Imaginei receitas especiais

e me decidi pelas polonesas.


Não as procurei

e nem sei o que se come na Polônia

à beira do grande rio,

inteiramente polonês.

 

Sonhei-o polonês

por pura provocação.

 

À luz de velas, muitas,

para o candelabro de oito braços

da Festa das Luzes.

 

Naturalmente que seria um shabat,

para que fossem recebidos os ancestrais.

 

Regado a vinho e óleo.

Vinho a combinar com o prato,

óleo para lubrificar a alma.

 

Lilíthico, talvez,

com uma enorme fogueira

no centro da sala

feita de papel crepom,


para não me incendiar os dedos,

nem a casa.

 

Nossos nomes seriam esquecidos

e o óleo também serviria

a um novo batismo

e novos nomes.

 

Eu me chamaria de roCHA

e a ti te chamaria de PRAnto.

Depois trocaríamos de lugar

e eu seria PRAnto,

tu, roCHA.

 

Até que de tanto troca troca

acabaríamos por nos misturar

e viraríamos PRANcha e tocha

 

Aí nos cansaríamos

e tudo ficaria

Roto e CHAto.

 

Só nos restaria dançar

Um tchá tchá tchá

 

e pronto: Pranto

deitar-se-ia na Rocha

seu corpo cansado

e as náiades

cobririam seu sono.

 

E pronto: Rocha

esqueceria seu Pranto

e descansaria seu copo

na noite acabada

 

e todos os verbos

do futuro passado

voltariam ao mundo das ilusões

quietos e cientes de não serem reais.

 

E pronto: eu retornaria ao meu canto.

 

Foi um belo jantar

e esqueci de te convidar.

31/07/1987

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