ARQUIMÚLTIPLO

 

O homem que amo

é arquiteto

(também é músico).

Mais arquiteto do que músico

ou mais músico do que arquiteto.

 

Não sei.

 

Só sei que quando estamos juntos

arquiteta sem o perceber, talvez,

tamanha construção no meu ser

que nunca sou a mesma ao amanhecer.

 

Wagneriano por essência,

Vivaldi na aparência,

junta os dois e compõe um carnaval

que ameaça explodir com meus tímpanos,

embora, na superfície,

a Sinfonia apresente-se mansa.

 

Quando resolve inverter a ordem

meu corpo é seu papel vegetal

para elaborar, vagarosamente,

a nova estrutura que irá plantar no amanhã.


Sou a planta que se lhe afigura

mais adequada na correspondência dos seus dias.

 

No entanto, há uma fuga melodiosa

que lhe serve de esquadro nas noites,

para que crie uma alvorada

a revoar notas em seu violino

e solidificar no compasso dos seus beijos.

 

Além da arquitetura e da música,

pinta umas telas (ou pintava).

Inventou agora estudar musicoterapia

para combinar

com as artes que já tem.

 

Afora outras coisas mais,

possui talento também para uma boa prosa

com seja quem for, seja noite ou seja dia.

 

Pensam que já acabou?

Não! É tão versátil o homem que eu amo,

que descobriu a arte

de modificar o espaço e o tempo,

para além das paredes e das horas

quando resolve ficar só.

 

O homem que eu amo me dá muito trabalho

pois, para encontrá-lo,

antes é preciso consultar os oráculos,

verificar a posição da lua,

ler as cartas do tarot,

jogar búzios, pedir permissão ao santo do dia,

tomar banho de ervas, UFA!

Até o pé com o qual me levantei preciso lembrar.

 

Cumpridas as obrigações aos deuses todos

encontro o arquiteto tocando música,

a pensar em pintar a musicoterapia da prosa

e, não quero nenhum deles.

 

Viro-lhe a prancheta do avesso,

arremesso seu violino ao ar,

parto a tela em mil pedaços,

jogo seus livros no lixo,

expulso os tagarelas da sala

e o tenho macio e gostoso nos meus braços.

31/01/1987

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