Sou desmanchada,

sem nada.

Qualquer coisa...

 

Qualquer coisa...

Vento afobado,

sem paragens

na estrada.

 

Sinto o presente

leve na esquina,

sou extensão

de esperas infindas.

 

Coisas esmaecidas

nas colunas do rio

movem meus passos

nas malhas do tempo.

 

Qualquer....

Qualquer coisa...

estremece no céu

ao mirar-me nas águas.


                                    30/07/1987

 

 

 


 

Inconsequente

O mar em mim entrou

 1987

  

 


QUARTETO

 

Duas portas

Duas luas

Duas ruas

Duas e duas

Vinte e duas

                                                                                                                                    Dois e duas

Duas músicas

                                                                                                                                     Duas musas                                                                                                                                     Duas e duas

                                                                                                                                    Duas e dois


Às duas e dois

Os dois leões

Sob duas luas

Abrem duas portas

Ás duas musas

E dois a dois

Entre duas ruas

Tocam duas músicas

Juntam duas vidas

Como dois irmãos

 

Duas e duas                                                                                                                                        Dois e dois                                                                                                                                         Dois e duas                                                                                                                                        Duas e dois

 

Um QUARTETO

 

 


Minha amiga Cléa

 

Tão esperta a minha amiga,

que resolveu morrer num domingo,

para que na segunda feira se fizesse feriado.


A morte não esperou que ela completasse planos

para um futuro próximo.


Ajudou-a a limpar armários e gavetas

do passado longínquo.


Fiquei à assistir a decomposição indiscreta

de quem antes primou por discrição e controle.


A morte! A morte! Como sempre pega de chofre

bandidos ou senhores, crianças ou mulheres

e os banem da terra queiram ou não.


Foi embora. Talvez por falta do que fazer

ou de uma grande paixão nesta vida

(que lhe deu tanta porrada!).


Nenhum amor que lhe mostrasse

o prazer de ser mulher.


Ou, se o teve... quem é que sabe,

se nunca o disse a ninguém?


Quem sabe? Quem sabe

um pescador de pérolas

do fundo dos seus sonhos

lhe tenha mostrado

um reino melhor e mais humano?


A incômoda amiga atingiu os amigos

ao abrir a caixa secreta

dos bichos do seu circo

e cada qual pegou

o melhor lhe convinha.


Tigre cobra lebre elefante corvo águia

todos dançaram a dança da cova.


Eu, com uma mão peguei o monstro da noite,

com a outra, a vara que sabe domar.


Minha amiga ensinou o lado escuro das coisas -

o orgulho da solidão, a disciplina dos sentimentos,

a vergonha da queda, o desespero da posse.


Ensinou-me que nada vale metade de uma pena.


Escutei cada mensagem que trouxe na voz,

suas advertências quando eu estava muito errada,

os exemplos que trazia do cotidiano,

as súplicas que trazia no olhar.


A suavidade com que mostrou meus enganos,

os alertas para que eu olhasse para os dois lados

(o tempo todo ajudando-me a não ficar como ela)


Nessas horas eu nem piscava. Só entendia. Bastava.


Ela sabia!                                              

                                                                  09/03/1987

 


TRANSITAR


Esta tarde não sabe das surpresas

porque o tempo parou de correr.


Parou à minha frente com cara de expectativa

e fez do meu ser uma pausa de música.


Mas... não é a primeira vez,

em outras não sabidas expectativas

surpresas vieram, nesse estado parado.


Parou em minhas mãos o cheiro do mar

e banhou a vida com surpresas esquecidas.


Quando a tarde não sabe do que será feita

aprimora-se o canto que se há de viver

e encontra-se uma pérola na lama

onde a morte se faz engano.


Não! Não é a primeira vez

que a expectativa da tarde

vira do avesso o projeto da noite.                                                    

                                                 17/08/1987

 


Apátrida

 

BRASIL

brasa

anil

 

BRASIL D'AMÉRICA

rico

em misérias

 

Não cantarei BRASIL

aos ventos

do AMOR

tuas graças

 

Sou estrangeira

em meio a estrangeiros

estranha

sou

na minha terra

 

BRASIL

verde e amarelo

estou triste

com você

 

Não cantarei BRASIL

em versos

os credos

do teu povo

 

Sou poetisa

em meio a poetas

poetisa sou

e sem terra.

                       03/01/1987

 

Férias


Meu inconsciente transbordou,

resvalou, trespassou, acusou

sordidamente minha razão.

 

Agora não tenho mais razão.

Não tenho mais a seiva da lógica,

nem patrulho o meu sonho.

 

O meu inconsciente foi danado!

Arrasou com as minhas farsas

e caçoou dos meus trejeitos.

 

Trouxe à tona o seu lixo.

Safado! Arrebentou-me toda

e desacorrentou o passado.

 

Até em Iguape foi parar!

Ah, o meu inconsciente!

Só brincou no meu enterro.

 

Agora fica aí, acordado,

fingindo que não existe.


O que estará a preparar?

Acho que tirou férias...

Cansou de fazer pirataria

com minha pobre cabeça.

                                      (1987 ?)

 


AQUILO


Aquilo que não está

em livro algum escrito

e nenhum mestre pode explicar,

que não está nas palmas das mãos,

tampouco nas cartas ciganas,

nem nos sonhos dos homens,

nem nas palavras dos santos...

 

Aquilo que não posso perguntar

pois resposta alguma há,

que não posso procurar

por que no claro

 e no escuro não está,

nem no sono, nem no transe,

nem na morte, nem na vida...

 

Aquilo que não dá

para tocar

olhar

cheirar

deglutir

que existe por existir,

que vibra por vibrar,

que expande por expandir...

 

Ah! Aquilo que faz a ordem,

desordena nos mistérios,

aglutina numa chama

e une-se a si mesmo

num instante inesperado...

 

Aquilo que não se pensa

e sequer além está

do tempo e do espaço,

junto ao movimento,

nem em outras dimensões...

 

Não está no Céu nem no Inferno,

na congruência dos rios,

nas florestas virgens,

no oceano findo, não está

na virada do século...

                                            (1987 ?)


A Desconhecida


Uma mulher que não conheci partiu.

A terra toda escureceu por longo período

e todos os eus do homem triste pararam de existir

quando a mulher mãe dos seus filhos partiu.


A mulher que partiu era única.

Por mais que eu tentasse sanar a tristeza do homem,

mais afundava minh' alma no ventre oco da morte.


A mulher que partiu e não conheci

sempre existirá nos filhos que deixou

ressuscitada no meu amor ao homem que ficou.

                                                        06/07/02/1987

 

Pontada

 

Aguda

          dor

               A dor

                        água

                                 Aguda

                                                 20/07/1987

(Poema inspirado após a primeira leitura do livro O ARCO E A LIRA de Octavio Paz)

Talvez, a Poesia,

não seja apenas Forma,

revelação de estruturas,

Imagem

Busca de Unidade

Multiplicidade

Angústia de Prazer

Nostalgia

 

Talvez, Arco rosado,

Lira dos Homens,

Coral azul e branco

um modo de ser

que não é um estado.

Um rosto, um castigo,

Divindade Nomeada

Expiação


Talvez, nem sequer exista.

                         11/10/1987

 

Construções antigas não explicam mais

o produto, o óleo do amor gasto pela morte.


Preciso deixar que as palavras se façam agora,

para que não partam por medo do perigo

de um futuro feito em pequenas doses de dor.


Eu sei dos vendavais da alma.

Paciência é coisa de velho. Trancafia querenças.

Amor não é negócio. Não exige bom-senso.

Sublimação é para Freud. Sou Reich.

                                               26/11/1986

 

 

 

SOLAR

 

Incorrigível, incontrolável, inveterada!

Adoro-me assim

Canais abertos, incertezas, calmarias...

Fatos assim...

 

Sentir-me antiga, arraigada em mim (!)

Versada nas prosas,

Proseada nos versos.

 

Eu mesma em qualquer situação,

sem adendos, amuletos, adereços,

apenas meio-dia, sol a pino.

                                                      26/11/1986

                                                                     Modismos


Não é conto, nem canto ou desencanto.

De nada vale a vida, não se liga para nada.

Modismos.

 

O cotidiano tem lá suas graças.

A meia furada, a falta de espaço pra papo furado,

o sol que bate em cima do dicionário

tem lá suas graças.

 

Onde vai o tempo assim tão apressado,

se os passos se tornam cada vez mais lentos

e o tempo cada vez mais nulo?

 

Onde ficam os dias que se foram,

onde se guardam os dias que virão

nesse tênue limite entre a vida e a morte?

       06/12/1986

 

AFETOS

 

Afetivamente afeto

Meu afeto

Afeto

Teus desafetos

Afetas

Meu afeto

 

Afetivamente afetas

Meus desafetos

Afeto

Teu afeto

Nos afetamos

Viramos

Fetos.

                  13/06/1986

 

AO AMADO

 

Gosto do canto calado do meu amado,

dos seus gestos imperceptíveis que me obrigam a adivinhar

os vales-oceanos, as rochas-praias do seu caminhar.

Gosto de sentir que nada é inútil

e que o amor se transforma

a cada passagem nas reentrâncias do eterno.

 

Quando meu amado se afasta e se recusa aos meus beijos,

cresço tanto que aprendo as relutâncias do desejo.

Quando me acolhe e me aceita nos meus beijos,

mais ainda cresço e me permito a dádiva do amor.

 

Cada poesia ao meu amado

é uma forma de dizer o bem que me acontece

amar um homem que me faz poeta.

 

Possuo a coragem de ser romântica nesses dias de hoje

e no meu coração habita um florista de cravo na lapela

que não se cansa de plantar flores do campo

e adora brincar de bem e mal me quer.

Finjo-me zangada, para que ele colha outra flor

e recomece a brincar.

 

Desfolha pétala por pétala,

elas caem em minhas mãos

e perfumam minh’ alma.

 

O meu romantismo acompanha os tempos,

por vezes passeia meus versos no concretismo,

atinge a vanguarda, viram andróginos e vislumbram

o que será o pós-futurismo-wave-dark-ocultismo.

 

Porém, minh’ alma é essencialmente feminina,

diverte-se com meu corpo e caçoa do meu coração.

Juntos formam um belo triângulo

do qual eu sou a madrinha.

 

Minh’ alma passa muito tempo

a zombar de mim no meu sono.

Disfarçou sua face num corpo de homem.

Mostrou-se terror num corpo de homem.

Encontrou seu deus num corpo de homem.

Um dia virou ouro nos cabelos de um homem-mulher

e outro dia virou sedução no corpo de uma mulher-homem.

 

Desse belo quarteto nascido de um grande sonho

me vem a criação,

tamanha languidez,

que me deito tranquila

na cama do amor

e me faço feliz mesmo na ausência do amado.

 

Quando meu amado se veste de mulher,

ponho-me de homem a reclamar seus pudores,

aí ele foge como uma adolescente virgem de amores.

 

Quando meu amado se veste de homem,

ponho-me de mulher a me encher de tremores,

aí eu fujo como uma criança com medo do escuro.

 

Mas quando meu amado se mostra nu,

despe-se das horas, dos conceitos e das ideias,

eu me dispo do medo e do espaço, da loucura e da poesia

e fico toda nua.

 

Então voltamos a nos vestir.

A cueca é de lycra, a calcinha cor da pele,

O relógio marca as horas no pulso dos afazeres,

Galaxy é o cigarro, as crianças vão à escola

e os amigos vem clamar um pedaço desse amor..

 

Damos, quase ininterruptamente,

o amor que vivemos na solidão.

Na solidão que nada pode preencher,

que deve ser afagada com carinho

para que a morte seja bela.

 

A solidão serve à morte,

deve ser vivida

com toda humildade permitida ao humano.

 

O amor serve à vida,

por isso deve ser vivido

com toda a intensidade proibida.

 

A vida e a morte são companheiras,

o amor e a solidão são irmãos

e nem se importam

com as confusões dos homens.

 

Se há para cada estação

 uma lei ordenada e inexaurível,

o que posso fazer com as chamas

 que ardem no meu verão

a não ser aquecer o outono do meu amado

e cozinhar os frutos maduros do saber

até os transformar em palavras

manjares-de-delícias?

 

Ah! O amor. Esse novelo de seda que se desenrola

aos meus pés, retira o mundo das aparências

e sutil como um verso que virá,

ainda assim, é um gesto branco no tempo.

 

Tão pleno de si mesmo é meu amor

que desafia os oráculos

e não se intimida com os atalhos.

É como a areia da ampulheta

que quando cheia reverte-se

e se torna vazia.

 

Para ser bem quisto nas graças do meu amor

é necessário ser impecável como um deus

e pecador como um homem.

Silencioso como uma sombra

e estrondoso

como o trovão.

 

(Relâmpago faceiro

pega quem pode

na distração do espelho).

 

Gosto de olhar para meu amado.

Às vezes eu olho e o vejo tão menino,

nesse momento não sinto

direito de seduzi-lo.

Outras vezes eu olho e o vejo tão velho,

tranquilo e me sinto menina,

sem desejo algum de o encantar.

 

Há vezes que olho e o vejo tão viril

que o pretendo inteiro dentro de mim.

Mas quando olho e não o vejo

menino, velho ou viril,

sinto enorme respeito por sua alma.

                         21//12/1986


E N T R E ME N T E S

 

Não tenho nada bonito a dizer,

nem novidades a contar

desta vida de aquém mar.


Os bancos acomodam os velhos na esquina

neste domingo desfolhado ao vento

e as crianças continuam traquinas.


Não quero saber notícias tuas,

das surpresas do velho mundo

nos comboios de além mar.

 

Que fiquem suspensas

as razões pré ditas

de um não envolvimento

nos braços da minha cama.


Não mandarei nenhum verso a ti,

não falarei teu nome

e na tua volta

não buscarei

as lembranças que trarás no relógio.

 

Que fiquem suspensas

as emoções contidas

no total envolvimento

de um ano passado.

 

Não perguntarei aos amigos

o que de ti é feito

no contorno dos dias

e nas grades da memória de uma cidade.


Não me prenderei.

Não quero marcas no meu corpo.

Tenho saudades intensas

 e imensas de oceanos.

Ilusão de distância!

 

Que fiquem suspensas

as falas reunidas

no mar das carícias

de um sonho acabado.

 

Não vou querer saber o que se passa

 atrás dos teus óculos,

e das músicas tocadas atrás dos teus arcos

 não saberei.


Na tua volta não mais me lembrarei

o que se passou,

o que da morte se fez

e do luto se chorou.

                                    26/10/1986



          

                                                                                                                                                                

 


PAUSA

 

Às vezes os sentimentos se apequenam

e os versos são poucos,

o coração aperta

e sobrevêm enorme cansaço.

 

Nesses momentos não sou nada,

não tenho poder nem desejos.

Somente o aperto

e a entrega.

 

Quando assim cansada

lembro-me do amor,

sinto-o tão longe

que fico desapegada.

 

Peça em meio às outras,

nem contente nem descontente,

vazia de mim mesma

fico.

 

No vazio esvaziada

esparramo-me indolente

ao sol na janela

e me sinto revigorada.

                             27/06/1986

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...