DISCURSO DAS ESTRELAS

 

Quando fui concebida esqueceram-se

de acender uma vela a São Damião

e as estrelas do céu não perdoaram esse pecado.

 

Naquele tempo era pecado ser concebida sem pátria e sem lei.

 

A estrela-mor, muito brava,

ordenou que eu nascesse cigana

na terra do homens,

não tivesse parada, país nem posses.

 

Que pelo menos (quanta bondade!) soubesse ler a sorte

e falar com as estrelas, madrinhas-guias do meu viver.

Também que soubesse decifrar as tormentas

e delas tirar lições para ganhar a vida,

fazer versos e me entregar

somente a quem pudesse me afinar

como a um violino.

 

Porém as estrelas, muito bravas,

brincam de me esconder de mim.

Na luta vã por me encontrar

atormento-me e lições não aprendo.


Elas pegam meus versos e os escondem.

Entregam-me despreparada a qualquer um.

Fico com tanto medo e me quebro

em dor e receios.

 

A estrela-mor que tudo comanda, muito brava,

aparece de repente na brincadeira das estrelinhas,

ordena-lhe que parem com tamanha algazarra,

que deixem em paz a pobre cigana.

 

Livre a cigana arregaça as mangas,

junta-se aos músicos nas nuvens do tempo,

verseia poemas e lê sua sorte.

Realiza-se grande festa no céu quando suas liras poéticas

soam nas cordas do violino.

 

Para tanto, foi necessário o esquecimento total do mundo.

                                                          14/07/1986

 

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