DISCURSO
DAS ESTRELAS
Quando
fui concebida esqueceram-se
de
acender uma vela a São Damião
e as estrelas do céu não perdoaram esse pecado.
Naquele
tempo era pecado ser concebida sem pátria e sem lei.
A
estrela-mor, muito brava,
ordenou
que eu nascesse cigana
na
terra do homens,
não
tivesse parada, país nem posses.
Que
pelo menos (quanta bondade!) soubesse ler a sorte
e falar com as estrelas, madrinhas-guias do meu viver.
Também
que soubesse decifrar as tormentas
e delas tirar lições para ganhar a vida,
fazer
versos e me entregar
somente
a quem pudesse me afinar
como
a um violino.
Porém
as estrelas, muito bravas,
brincam
de me esconder de mim.
Na
luta vã por me encontrar
atormento-me
e lições não aprendo.
Elas
pegam meus versos e os escondem.
Entregam-me
despreparada a qualquer um.
Fico
com tanto medo e me quebro
em
dor e receios.
A
estrela-mor que tudo comanda, muito brava,
aparece
de repente na brincadeira das estrelinhas,
ordena-lhe
que parem com tamanha algazarra,
que
deixem em paz a pobre cigana.
Livre
a cigana arregaça as mangas,
junta-se
aos músicos nas nuvens do tempo,
verseia
poemas e lê sua sorte.
Realiza-se
grande festa no céu quando suas liras poéticas
soam
nas cordas do violino.
Para
tanto, foi necessário o esquecimento total do mundo.
Nenhum comentário:
Postar um comentário