CONCERTO PARA UMA PARTIDA
Não sabe ainda o violino se parte
com a velha capa ou a troca por nova,
ou se fica por lá a mala velha e volta
violino novo em mala nova.
Quem sabe, talvez, nem parta agora
e troca capa e mala
antes de chegar setembro,
aqui na velha terra empoeirada.
Quem sabe quando chegar setembro,
muda-se o velho violino de endereço
Pátria, pátria interna, rua nova.
Por ora, reflete o violino
se vai ou se carrega o peso dos anos,
dos anos em que nasceu e morreu.
Tantas vezes nasceu e morreu
que se pensa imortal.
Cordas e arco pedem renovação.
Se partir, talvez recupere velhos
sonhos,
novidades musicais, alianças
estruturais.
Ainda não sabe se vai ou se esvai
na morte do antigo pelas bandas de cá.
Violino valente! Nem mais se lembra
que ficou de lado, guardado
no fundo de um armário.
Reavivou-se ao reencontrar a música
como se o tempo não tivesse passado.
Música difícil de ser ouvida,
de vez em quando arqueja-se
em breves e semibreves,
sai da capa, cresce e espanta o pó das
cordas.
Volta logo a se guardar dentro da capa.
Recolhido assim ainda existe a memória
da orquestra que vibra em sinfonias.
Só resguarda sua potência
para poder ler sem pressa a musa
silenciosa
e pressente o estrondo que se aproxima.
Então, antes de partir
encerra no seu corpo de madeira nobre
toda a alquimia do futuro.
Violino! Se eu pudesse pegava o mundo
inteiro
e o desdobrava em ouro e delicadezas de
namorada
para te servir como escala.
Apenas posso acompanhar
teus movimentos com os olhos do coração
e afinar tua cordas com os beijos das
ondinas
e te tocar como se fosse sempre a última
vez.
Violino! Não te partas pelas portas e
pelas almas,
não te vendas, não te does.
Só toques violino! Só toques!
Nova música ou velha que seja,
tocada como se fosse sempre a primeira
vez.
Violino! Tocas-me onde nenhum outro
instrumento tocou.
Toque-me violino! Já tenho a música.
Basta tocá-la.
Vai, parte violino, além mar existe um
segredo.
Só o descobrirás na volta.
Fica violino! Fica! Aquém mar existe um
segredo.
Descobrirás ao partires.
Violino que atravessa o amor do presente,
as palavras de consolo dos sábios,
as crianças geradas sem pressa,
as marcas das tintas agrestes,
as terras pisadas dos bizantinos,
a sacralidade dos templos hebraicos,
a condução do menino de outrora,
para a conclusão do homem de agora,
toca! Toca largamente as partituras
dos mestres eternos se sejas mestre
nos pentagramas dos hojes manhãs.
Violino, recupere tua energia nos sons
que brotam em mim
e me perdoa a disritmia dos meus trinta
e três anos
vividos no viveiro dos pássaros.
Invada-me com tua música, lentamente,
para que eu possa sentir a pureza
de cada nota e ser, harmonicamente,
num único movimento completo,
arco e cordas, som e pausa
ao mesmo tempo e contigo.
Pausa... e pausa... e pausa... para
continuar
a musicar o meu amor.
Não quero que me dês tua música,
já tenho a minha e se me deres a
mandarei de volta
e ficarei preocupada com teu estado
até te ver voando novamente pelo zênite,
n’água com suas guelras, na terra como
fauno
e no fogo feito brasa abraçando o fogo.
De qualquer forma, violino, na partida
ou na volta,
acordarei as cordas do teu silêncio numa
noite
de lua cheia ou nova, numa noite
qualquer destas
e terás uma música inteira
na bússola mágica de um sol a pino.
Agora, violino, basta tocar, dedilhar
e andarilhar pelos cantos do meu ser.
Em breve uma surpreendente nova e
estranha música
sossegará teu coração prestes a partir.
17/17/1986
Nenhum comentário:
Postar um comentário