Minha amiga Cléa

 

Tão esperta a minha amiga,

que resolveu morrer num domingo,

para que na segunda feira se fizesse feriado.


A morte não esperou que ela completasse planos

para um futuro próximo.


Ajudou-a a limpar armários e gavetas

do passado longínquo.


Fiquei à assistir a decomposição indiscreta

de quem antes primou por discrição e controle.


A morte! A morte! Como sempre pega de chofre

bandidos ou senhores, crianças ou mulheres

e os banem da terra queiram ou não.


Foi embora. Talvez por falta do que fazer

ou de uma grande paixão nesta vida

(que lhe deu tanta porrada!).


Nenhum amor que lhe mostrasse

o prazer de ser mulher.


Ou, se o teve... quem é que sabe,

se nunca o disse a ninguém?


Quem sabe? Quem sabe

um pescador de pérolas

do fundo dos seus sonhos

lhe tenha mostrado

um reino melhor e mais humano?


A incômoda amiga atingiu os amigos

ao abrir a caixa secreta

dos bichos do seu circo

e cada qual pegou

o melhor lhe convinha.


Tigre cobra lebre elefante corvo águia

todos dançaram a dança da cova.


Eu, com uma mão peguei o monstro da noite,

com a outra, a vara que sabe domar.


Minha amiga ensinou o lado escuro das coisas -

o orgulho da solidão, a disciplina dos sentimentos,

a vergonha da queda, o desespero da posse.


Ensinou-me que nada vale metade de uma pena.


Escutei cada mensagem que trouxe na voz,

suas advertências quando eu estava muito errada,

os exemplos que trazia do cotidiano,

as súplicas que trazia no olhar.


A suavidade com que mostrou meus enganos,

os alertas para que eu olhasse para os dois lados

(o tempo todo ajudando-me a não ficar como ela)


Nessas horas eu nem piscava. Só entendia. Bastava.


Ela sabia!                                              

                                                                  09/03/1987

 

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