MUDANÇA DE RUMO
Algo acontece...
Uma mudança na verdade das coisas,
uma lua que é outra na janela
e uma pedra que cai solta na ribanceira.
Uma mudança que ainda não se sabe violácea
e traz de encontro ao tempo
o passado e o futuro da cidade.
Algo de frente aos montes,
É completo e absoluto
com a sorte desejada
no primeiro degrau da escada.
Sem final premeditado,
apenas factual e elástico.
O meu amor nasce nas almofadas,
dorme nas minhas madrugadas
como um lençol de suave cetim.
Algo acontece...
Nos rateios de domingo à tarde
esperado nas minas nuas,
em meio ao lote
do caçador de ursos brancos,
que regressa do norte glacial.
Algo detrás do mato
com gravetos recolhidos ao léu,
para montar uma cabana
no frio inverno destilado
nas águas da minha vida.
O meu amor recita versos ao acaso
e se sabe forte como o carvalho
e é duro como uma rocha
quando ameaçado pelo vento oeste.
Alguma mudança ocorre
antes que se saiba os nomes
das praias a serem visitadas
das algas verdes e molhadas.
Algo acontece...
Neste momento mole e plástico
que escava no vácuo do nada
o nada que preenche tudo
e se faz forma e ocaso.
Correm nas minhas linhas
estranho começo de algo
que menos parece o de antes
e mais se assemelha ao girar
dos dias no colo do amor.
O meu amor tem o prazer
de perder a fé nas estrelas cadentes
e de a encontrar nas espáduas
daquele que é dono do inverso.
Alguma coisa a mais a mais a mais,
sempre a mais amando a ti, a eu a mais
a marcar o ritmo dessa música.
O meu amor não pensa.
Transgride, brinca, troca,
usa calças, às vezes saias,
às vezes ensaia, discretamente,
os passos da próxima dança
e não deixa que minha mente saiba.
Assim ele vibra, rima e prima para ser sempre novo.
Nunca perdas, nunca negras, nunca chegas
e nem deves te chegar enquanto imperfeita prosa.
Só em perfeita rosa intraduzível em palavras.
Não chegar jamais para que não haja nunca.
Revelações absolutas além do cotidiano.
Não é hora de explodir o cravo branco no arcabouço
do presente que me prende os pensamentos.
O meu amor não deve nenhum pedaço de imprecisão
no movimento que o leva sem direção definida.
É completo e absoluto.
19/07/1986
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