AO AMADO

 

Gosto do canto calado do meu amado,

dos seus gestos imperceptíveis que me obrigam a adivinhar

os vales-oceanos, as rochas-praias do seu caminhar.

Gosto de sentir que nada é inútil

e que o amor se transforma

a cada passagem nas reentrâncias do eterno.

 

Quando meu amado se afasta e se recusa aos meus beijos,

cresço tanto que aprendo as relutâncias do desejo.

Quando me acolhe e me aceita nos meus beijos,

mais ainda cresço e me permito a dádiva do amor.

 

Cada poesia ao meu amado

é uma forma de dizer o bem que me acontece

amar um homem que me faz poeta.

 

Possuo a coragem de ser romântica nesses dias de hoje

e no meu coração habita um florista de cravo na lapela

que não se cansa de plantar flores do campo

e adora brincar de bem e mal me quer.

Finjo-me zangada, para que ele colha outra flor

e recomece a brincar.

 

Desfolha pétala por pétala,

elas caem em minhas mãos

e perfumam minh’ alma.

 

O meu romantismo acompanha os tempos,

por vezes passeia meus versos no concretismo,

atinge a vanguarda, viram andróginos e vislumbram

o que será o pós-futurismo-wave-dark-ocultismo.

 

Porém, minh’ alma é essencialmente feminina,

diverte-se com meu corpo e caçoa do meu coração.

Juntos formam um belo triângulo

do qual eu sou a madrinha.

 

Minh’ alma passa muito tempo

a zombar de mim no meu sono.

Disfarçou sua face num corpo de homem.

Mostrou-se terror num corpo de homem.

Encontrou seu deus num corpo de homem.

Um dia virou ouro nos cabelos de um homem-mulher

e outro dia virou sedução no corpo de uma mulher-homem.

 

Desse belo quarteto nascido de um grande sonho

me vem a criação,

tamanha languidez,

que me deito tranquila

na cama do amor

e me faço feliz mesmo na ausência do amado.

 

Quando meu amado se veste de mulher,

ponho-me de homem a reclamar seus pudores,

aí ele foge como uma adolescente virgem de amores.

 

Quando meu amado se veste de homem,

ponho-me de mulher a me encher de tremores,

aí eu fujo como uma criança com medo do escuro.

 

Mas quando meu amado se mostra nu,

despe-se das horas, dos conceitos e das ideias,

eu me dispo do medo e do espaço, da loucura e da poesia

e fico toda nua.

 

Então voltamos a nos vestir.

A cueca é de lycra, a calcinha cor da pele,

O relógio marca as horas no pulso dos afazeres,

Galaxy é o cigarro, as crianças vão à escola

e os amigos vem clamar um pedaço desse amor..

 

Damos, quase ininterruptamente,

o amor que vivemos na solidão.

Na solidão que nada pode preencher,

que deve ser afagada com carinho

para que a morte seja bela.

 

A solidão serve à morte,

deve ser vivida

com toda humildade permitida ao humano.

 

O amor serve à vida,

por isso deve ser vivido

com toda a intensidade proibida.

 

A vida e a morte são companheiras,

o amor e a solidão são irmãos

e nem se importam

com as confusões dos homens.

 

Se há para cada estação

 uma lei ordenada e inexaurível,

o que posso fazer com as chamas

 que ardem no meu verão

a não ser aquecer o outono do meu amado

e cozinhar os frutos maduros do saber

até os transformar em palavras

manjares-de-delícias?

 

Ah! O amor. Esse novelo de seda que se desenrola

aos meus pés, retira o mundo das aparências

e sutil como um verso que virá,

ainda assim, é um gesto branco no tempo.

 

Tão pleno de si mesmo é meu amor

que desafia os oráculos

e não se intimida com os atalhos.

É como a areia da ampulheta

que quando cheia reverte-se

e se torna vazia.

 

Para ser bem quisto nas graças do meu amor

é necessário ser impecável como um deus

e pecador como um homem.

Silencioso como uma sombra

e estrondoso

como o trovão.

 

(Relâmpago faceiro

pega quem pode

na distração do espelho).

 

Gosto de olhar para meu amado.

Às vezes eu olho e o vejo tão menino,

nesse momento não sinto

direito de seduzi-lo.

Outras vezes eu olho e o vejo tão velho,

tranquilo e me sinto menina,

sem desejo algum de o encantar.

 

Há vezes que olho e o vejo tão viril

que o pretendo inteiro dentro de mim.

Mas quando olho e não o vejo

menino, velho ou viril,

sinto enorme respeito por sua alma.

                         21//12/1986

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