UNIDADE INTENSIVA

 

FICOU PERDIDO EM MEIO AOS ESCOMBROS

DA VIDA.

QUE PENA! NÃO PUDE SALVÁ-LO.

 

TODAS AS FOLHAS BATIDAS PELO VENTO

E TODOS OS VENTOS SOPRADOS NO TEMPO,

TODAS AS VIDAS EXALTADAS EM HINOS

E TODOS OS MARES AMADOS NA TERRA

 

FORAM-LHE OFERTADOS EM PRATA ENVOLVIDOS.

 

PERDIDA EM MEIO AOS ESCOMBROS FIQUEI.

QUE PENA! SALVEI-ME! PORÉM SÓ. SÓ!

 

NÃO ENCONTREI VAZIA CAIXA DE OURO,

TAMPOUCO TESOURO DE ESMERALDAS,

 

OLHOS VERDES DE AMADO, ROSTO DO TEMPO,

NENHUM VERGÃO APAIXONADO, MENTIRAS DOS HOMENS,

NEM DEDOS SOBRE TECLAS, NEM MÃOS SOBRE SEIOS.

NÃO HAVIA NADA.

 

HÁ MORTE. ESCURA. NOITE CERRADA.

 

TODO O PENSADO MORRE. FORMAS DESAPARECEM.

NÃO HÁ NADA. SÓ. NADA  A PROCURAR NO DIA.

 

NOS ESCOMBROS CHORA UMA CRIANÇA.

SALVA-LA-Á  ALGUÉM. DEIXEM QUE CHORE!

 

PERDIDOS FICARAM OS POEMAS, AS DORES, OS CAÇADORES.

TESOUROS ENGANADOS. PERDIDAS FICARAM AS CAIXAS DE SAPATOS

QUE GUARDAVAM OS BOTÕES DOS ARRANHA-CÉUS DO PASSADO.

 

CHOVEM COMPUTADORES! NÃO HÁ NADA. MERGULHO DE ATORES NO PAPEL.

JAZIGO DE HERÓIS. ESQUEÇAM OS ESCOMBROS.

MEMÓRIA TRANCAFIADA.

 

ELE SE FOI. MUTILADO DA SORTE. SOÇOBROU NOS ESCOMBROS

COMO MÁSCARA  ANTIGA GUARDADA EM TEATRO DE AMADORES.

 

FOI-SE SÓ!

1988

 

Estouro de granada

Meu amor arrebenta

Benzo e não adianta

 

Brinco desgraçada

No mercado da explosão

 

Acordo sozinha e molhada

Está longe a tua casa

 

Batuca batuca batuca e machuca

Meus olhos

De tanto olhar o relógio

 

TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC

TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC TIC TAC

TIC TIC TIC

 

TAC TAC TAC TAC TAC TAC TAC TAC TAC TAC TAC TAC T AC TA C

TIC T T T T T T TIC TIC TI C TIC

TAC TAC TAC TAC TAC TAC TACTACTACTACTACTACTAAAAAAAAAAAAAAAAA

 

Descompassada bate bate bate bate-bate bate bate

Socorroooooooooooooooo

Bate bate bate bate bate bate bate bate bate bate bate bate

Tunto tunto tunto tunot nuo tunto tunto

Descompassa descompassa descompassa passa passapassapassa

Chôooooooooooooooooooooooooooooooooooo

 

CALMA CALMA CALMA CALMA CALMA CALMA CALMA CALMA CLAMA

Meu coração”””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””””
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1988


Impossível não acompanhar os meandros da tua sorte

meu caro.

Deite e role nas tuas concepções.

Impossible my Darling

caminhar sem a fonte dos deuses.

 

Ai ai I am a beautiful name the your space.

Não tema conclusões tolas.

You are louco.

 

I not remenber tua face

Apenas brinco meus dedos na tua orelha.

Não há espaço para meus apelos.

Pois esqueça os pelos a menos

que apenas rimam meus sonhos.

Pelos e apelos pelos e apelos.

 

Pela Santíssima Trindade, cuidado!

A vela se queima e apaga

e um monte de parafina no prato fica.

Oh! Because I love you estou nessa fria

que até parece que perdi o rumo.

 

People, people berra Charles.

I can see meus poderes de deusa acabada

quase na sarjeta do teu desafeto, my man

 1988

 

Afago cabeça loira e morena

no norte de uma vida molhada

e ensaboada de maracujá.

Também de abacaxi e caju.

 

Cat anda mouse – Tom e Jerry

da minha infância e da minha também.

Faz de conta que é assim.

- Ah! Assim...

 

- Deixapralá

- Concordo.

Brincar de pular

e pular... – já chega de pularia!

- Finjamos então que estamos quietas.

 

(participação especial de Maíra Goldschmidt Nogueira, 09 anos)

1988

 

Específico oh! my God!

Gooooooooool, show, in garden

do meu coração sempre a entrar

na dança, festança, poupança da nossa gandaia.

 

GAIA! Excelsa malandragem.

Não importa à forra irei e na farra cantarei.

Assim, bobeira “x” da meia noite e vai chover

até o amanhecer da tua risada careca de paixões.

 

Situations da vida, minha cara.

Abra os olhos, senão o rabo entorta de tanto se sentar.

Simbora Brasil que a roda da saia roda no terreiro de Oxalá.

Brinco branco e branca rima samba na paisagem do Planalto.

 

Falta do que fazer numa noite de lua crescente.

Na água de coco do chafariz do teu nariz inspiro-me nas torrentes

de chocolate em mantos de serafins no mundo do sem fim.

A língua do lobo sacode a noite e espera a janela se abrir.

 

(participação especial de Maíra Goldschmidt Nogueira, 09 anos)

1988

 

Daqui não se vê nenhuma constelação.

Aqui não há saída banal.

(Entrada tortuosa...)

 

Daqui não se vê a vida.

Nem seu contrário.

Aqui é.

 

O som, o cheiro, a forma

do universo

na tua voz, teu canto, teu corpo.

Etéreo.

1988?

 


 

Hotel Toffolo

                                           (Carlos Drummond de Andrade)


E vieram dizer-nos que não havia jantar.

Como se não houvesse outras fomes

E outros alimentos.


Como se a cidade não nos servisse seu pão

 de nuvens.


Não, hoteleiro, nosso repasto é interior,

E só pretendemos a mesa.


Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras


Tudo se come, tudo se comunica,

Tudo, no coração é ceia.

 

Ao Toffolo

                          (zezé)

 

E não havia mais ontem.

Como se não houvesse outras luas

E outros sonhos.


Como se o céu não nos oferecesse o seu azul

De infinitos 


Não, nossa fome é de magia,

E só pretendemos a vida.

Acolheríamos a morte, se plena de amanhãs.


Tudo se ama, tudo se come, “tudo, no coração, é ceia”.

1988?

 

O retrato do meu bem querer

Amarela na gaveta, sob as roupas

Cheira a mofo, a tempo perdido.

1988?

 

Cassiopéia

 

Em Cassiopéia eu era feliz

e o infinito não existia.

Os ecos e os nomes dos amigos

de letras e formas eram.

 

De Cassiopéia via-se as margens do rio

e os segredos dos monges ficavam enterrados.

A música uma apenas era,

todos os astros iluminados se mostravam

e coitadas das urnas da morte,

jamais eram remexidas.

 

Em Cassiopéia não havia Pasárgada

e nela eu sempre existia,

sem marcas de lágrimas no rosto,

sem sulcos de dores no peito

e nenhum velho auxiliava na troca das partituras.

 

Hoje vivo sem Cassiopéia,

noutra esfera aterrissada,

no momento sempre novo,

assustada pela ausência dos sustos.

Em Cassiopéia sempre dia era.

 

Não há mais volta,

perdi as chaves

de Cassiopéia.

 

Os santos levantaram-se dos túmulos,

acenaram-me brancas mãos.

Que pena! Era tarde

e morrido eu já havia.

 

Pudesse eu emendar minha alma em Cassiopéia

e meus pés teimosos no seu chão,

um pedaço dela haveria de ter trazido,

mas não, arrancou-me ela minhas emoções

e surda a seus apelos então fiquei.

 

Não fossem essas rugas nos meus olhos,

talvez pudesse acreditar nos habitantes de Cassiopéia,

sempre felizes, a dançarem com ventres desnudos

e  das bocas sensuais transbordavam salivas.

 

Na esfera deste outro rio vou mergulhar e daqui alcançar

outra margem. 

                                                            07/07/1988

 

 

 

À espreita

 

Quero me perder para sempre da memória

e conseguir o que me é de direito

na esquerda da minha história.

 

Historiar até cansar

as mentiras que ouvi

e louvar no primeiro brilho ascendente das estrelas

a atemporalidade de uma música que chega mansamente

das entranhas amolecidas de um poeta que nasceu

das cinzas da sua história.

 

Farei de conta que nada fiz

para chegar aqui e nos cantos da sereia mergulhar:

 ninar pequenas ondinas com minhas histórias de sonhar.

 

Espreito e trabalho tranquila no silêncio da noite

a história que se fará solta, livre, uma brisa

a fecundar todas as histórias.

1986

 

 

Q U A S E

 

Ele quase sorriu

quando toquei sua barba.

Quase me olhou

quando sentei à sua frente.

 

Ele quase ficou feliz,

quando cheguei mais perto.

Quase se abriu

quando respirei seu rosto.

 

Quase quase um gesto.

Olhou de soslaio,

leu no meu corpo

o efeito do desfecho.

 

Tenho quase certeza

que ele sorriu

quando me sentei à sua frente

e toquei sua barba.

 

Quase tenho certeza

que ele ficou feliz

quando aspirei seu rosto,

pelo ensaio do seu gesto.

 

Quase quase certeza,

na leitura do seu corpo,

no soslaio do seu olhar,

que ele me quer.

1986/87


 

  

Momentos brancos

Momentos santos

Momentos brandos

momentos escuros

momentos feitos

momentos duros.

                                                                                                   1986/87

 

Lida dura,

Para Honduras

Cavalgarei.

                                                                                 1986/87

 


A cidade fede seus podres

no asfalto inútil da minha vida.

 

Permito à minha alma vagar.

 

Componho-me na fila

a partilhar as dores dos homens

conglomerados, em busca da sorte.

                              1986/87 


                               

 

Guia de informações

especiais, orientais.

Concerto certo.

País errado.

 

Mão do tempo.

Desterro.

 

Vou contigo

para lugar algum.

Nenhum.

Enterro.


Senhor dos grandes segredos

respeite

o futuro da Mão do Tempo!

1986/87

 

O hálito da música

partilha a viagem dos magos

numa brusca virada no meu roseiral.

 

Na morada sagrada das cores

a rebeldia do senhor dos meus confins

leva meus ouvidos à sinfonia

e a noite engorda suas luas

soltando as musas dos esconderijos.

 

Não pretendo os mistérios dos amigos,

somente o desenho do destino quero

no fascínio de um desconhecido olhar.

1986/87

 

 

OURO PRETO

 

Repleto de cores preenche-se o momento,

de espaço e de flores aguça-se o sonho

e, mais ainda, explode com os sentidos!

Avulta-se imenso o verbo escondido

e se espalha o dia no balanço do verso.

 

Na roda das férias rompe-se a rima

e na viagem do amado apruma-se a noite.

Estradas de não sei caminham até mim

na dança dos santos pintados de branco.

É a rosa e o cravo no quadro do sem fim!

 

Azuis de memórias no prato encarnado

colorem cismas de cinzas revistas

e, mais ainda, convertem os sabores!

Na pousada da serra dos amores

o verde se abre além das montanhas.

 

A paisagem é metáfora dentro dos olhos

e as ruas morenas no rococó das estátuas.

As pedras fincam blocos de firmes passadas

ao encontro do menino de um dia outrora.

É a lua na terra do caminhante. Enfim!

 

Um avanço na alma desprende o jardim

e o amarelo é bordado no templo do negro

e, mais ainda, esgueira-se o tempo!

Misturam-se as cores na morada do sol

e o arco íris se instala na umidade do ar.

 

É a cidade que acorda às visitas antigas

e portas que abrem ao futuro da História.

Os gemidos de liberdade ainda pairam nas trancas

e nos arcabouços dos poetas as penas respiram.

É a tinta restaurando os anjos barrocos.

1986/87


Ligamento

de reflexos

nos dedos.

 

Na foz do concreto

despeja-se o verbo

no eco

eco

eco.

 

Fibrosas

 conversas esparsas

ecoam

linhas,

 

matéria de sonhos.

Longos versos

reúnem

 

luas

cuias

antigas.

1986/87

 

CAPA – CIDADE

 

Com que capa sairei

para a sociedade

que me quer de volta?

 

A da intelectual

ou a da senhorita

namorada de fulano de tal?

 

A da mãe conscienciosa

ou a da psicóloga

jorrando diag e próg – nósticos?

 

A da mulher sofisticada

ou a da dona de casa

cheirando a bife e marmelada?

 

A da bruxa malvada

ou a da maga encantada

vestida com a capa da santa sagrada?

 

Sairei com todas

Porém, nua.

07/06/1986

 

 

MARIA DOS VENTOS

 

Somente Maria dos Ventos.


Nunca mais atritos, conflitos,

bancos, cheques, diplomas – ao lixo!


Papéis, arrepios, necessidades – à latrina!

Anéis, lacunas, projetos – nunca mais!


Somente Maria dos Ventos, sem psicanálise,

guarda-costas, absorventes, panos de prato.

Maria, maria, maria maria, maria, maria e maria.

03/03/1986

 

O infinito a mim pertence

e ninguém dirá adeus

ninguém dirá morreu.

 

O infinito a mim pertence

com todos seus incidentes

e maior do que Deus.

 

O infinito a mim pertence

com seu tablado de sempres

e malas prontas para partir.


1986/87

  

M AR A L T O

 

No mar alto

o verbo escoa

congela o tempo.

 

O plantador de cravos

no mar alto

entrega seu rosto

à luz do instante.

 

No mar alto

vaga o leme

escurece a tarde.

 

No mar alto

a esmo o barco

recebe a noite.

 

O plantador de cravos

no céu e no mar

abandonado canta.

 

No mar alto

no baixo céu

desliza o barco.

1986/87

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...