Cassiopéia

 

Em Cassiopéia eu era feliz

e o infinito não existia.

Os ecos e os nomes dos amigos

de letras e formas eram.

 

De Cassiopéia via-se as margens do rio

e os segredos dos monges ficavam enterrados.

A música uma apenas era,

todos os astros iluminados se mostravam

e coitadas das urnas da morte,

jamais eram remexidas.

 

Em Cassiopéia não havia Pasárgada

e nela eu sempre existia,

sem marcas de lágrimas no rosto,

sem sulcos de dores no peito

e nenhum velho auxiliava na troca das partituras.

 

Hoje vivo sem Cassiopéia,

noutra esfera aterrissada,

no momento sempre novo,

assustada pela ausência dos sustos.

Em Cassiopéia sempre dia era.

 

Não há mais volta,

perdi as chaves

de Cassiopéia.

 

Os santos levantaram-se dos túmulos,

acenaram-me brancas mãos.

Que pena! Era tarde

e morrido eu já havia.

 

Pudesse eu emendar minha alma em Cassiopéia

e meus pés teimosos no seu chão,

um pedaço dela haveria de ter trazido,

mas não, arrancou-me ela minhas emoções

e surda a seus apelos então fiquei.

 

Não fossem essas rugas nos meus olhos,

talvez pudesse acreditar nos habitantes de Cassiopéia,

sempre felizes, a dançarem com ventres desnudos

e  das bocas sensuais transbordavam salivas.

 

Na esfera deste outro rio vou mergulhar e daqui alcançar

outra margem. 

                                                            07/07/1988

 

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