Concerto para uma partida

 

Ah! Violinista!

Se eu pudesse pegava o mundo inteiro

e o desdobrava em ouro e delicadezas de namorada

para servir-te como escala, mas, só posso acompanhar

teus movimentos com os olhos das minhas emoções

e afinar tuas cordas com os beijos das ondinas

e amar teu arco como a um caule

cuja seiva se faz úmida e te tocar inteiro

como se fosse sempre a última vez!

 

Violinista que atravessa o amor do presente,

as palavras de consolo dos sábios,

as crianças geradas outrora,

as marcas das tintas agrestes,

as terras pisadas dos bizantinos,

a sacralidade dos templos hebraicos

e a ilusão do menino do passado

até a conclusão do homem de agora.


Toca! Toca continuamente as partituras

dos eternos mestres e sejas mestre

nos pentagramas dos hoje-manhãs!

 

Quero que me invadas com tua música, lentamente,

para que eu possa sentir a pureza de cada nota

e ser, harmonicamente, num único movimento

arco e cordas, som e pausa contigo.

 

Pausa... e pausa... e pausa.... para continuar....

Continuamente versando meu amor.

 

De qualquer forma, violinista, na partida ou na volta,

acordarei as cordas do teu silêncio numa noite

de lua cheia ou nova, numa noite qualquer dessas

e terás uma música inteira (absoluta!)

na bússola mágica de um sol a pino.


Voarás além do zênite,

mergulharás tuas guelras,

correrás como fauno nos campos

e no fogo serás brasa abrasando o fogo.

  

Por agora, violinista, basta tocar, dedilhar e andarilhar

por todos os cantos do meu ser,

antes que uma nova e estranha música te consuma.

1986/87

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