FIM


Ora, o lago não é assim tão fundo,

 o céu não está muito longe.

Eu sei que vou morrer

e nem me assusto.

 

É o fim do caminho.

Levo um lírio comigo

para não me esquecer

da vida na terra.

 

Minha filha ficará segura

nos braços do pai

e meu amor espalhado ao vento

a gerar chuva e poesia.

 

Ora, a vida não foi tão má assim!

Dela levo muita coragem

e enorme paixão

ainda semente.

 

A minha morte está viva

nas pontas dos meus dedos

e no auge da minha dor

deposita as asas do futuro

no buraco do passado.

 

Tudo acabou!

Ora, não foi tão triste,

esse milagre de estar morta e viva

não é tão misterioso assim.

 

Nem sei se já estou preparada,

para espreitar o grande silêncio

com a tranquilidade de uma mãe.

 

De qualquer maneira, o que se nota

é que o trigo não para de crescer

e a ausência ou presença da luz

não faz a menor diferença

no complemento do dia e da noite,

no ato do meu amor.

                     (07/11/1986)

 


V E R S O S  E  R E V E R S O S

 

Luares astrológicos,

eufóricos verões,

correntes de vidro,

anões nos quintais,

vinho e pão.

 

Espaciáticas batalhas

sem referências.

Gana!

 

Almas que se enlutam,

cabanas de doces,

Prédios condenados,

parques abandonados.

 

Sete metais integrados

no círculo dos iniciados,

dos bruxos, dos loucos,

dos párias, da Pátria.

 

Liras encantadas.

Medos irascíveis

nas serras.

.

Mares poluídos,

olhares entupidos,

sereias enganadas.

 

Deselitização,

gerais ciências, crenças.

Mitos enlatados: vendem-se,

para consumo popular.

 

Fé!

Nos oráculos, nos cálculos,

nos passos, nos trapos

nos traços, gritos,

arados!

 

Fé!

Nos trilhos, na trilha, nos laços.

 

Lágrimas prateadas,

folhas arrancadas,

portas fechadas.

 

Querubins

mutantes passageiros,

sobreviventes

da extra nave.

Na praça distribuem estrelas.

 

Caçada de borboletas,

ouro roubado,

bolas perdidas.

 

O elenco metamorfoseia-se!

                                   (1986)

 

 


À espreita

 

Quero perder-me para sempre da memória

e conseguir o que me é de direito

na esquerda da minha história.

 

Historiar até cansar

as mentiras que ouvi,

e louvar no primeiro brilho ascendente das estrelas

a atemporalidade de uma música que chega, mansamente,

das entranhas amolecidas de um poeta que nasceu

das cinzas da sua história.

 

Farei de conta que nada fiz

para chegar aqui e nos cantos da sereia mergulhar

e ninar pequenas ondinas com minhas histórias de sonhar.

 

Espreito e trabalho tranquila no silêncio da noite.

A história se fará, solta livre, é uma brisa

que fecunda todas as histórias.

                                 (1986)

 


Um poema imaculado

Retira-se correndo

                                                                                       Dos gatos

                                                                                                      Prados de adeus

DEUS!

Socorra os poetas!

                                                         (1986)

  

FAÍSCA

 

Risadas pleonásticas

acordam as estrelas

que brilham na ponta

de um fósforo azul.

                          (1986)

 

CAMPOS

 

Com as asas das borboletas

encaixadas nas saias – passo.

 

Aluguéis, lugares, passeios...

 

Os mortais desterrados

descansam seus ossos

à sombra das árvores.

 

Ceiam plantas e

meteoros. Pedras

metralham partes da vida.

                           (1986)


 

Q U E B R A  C A B E Ç A

 

NO      C E N T R O

 

a cúspide          comunal

dos   ob      jetos

INFE      CTAM

 

        CIMOS montanhosos do                                   FUTURO norteiam

        AS CIDADES

             e o outono                                                                                      se vai

 

Com as morte e os sonhos.

 

NOS EIXOS                                                                                                                      NOS EIXOS

           ELOSECOSBECOSBEIJOSELOSECOSBECOSBEIJOSELOSECOSBECO

Decidem

                                                                              A

                                                         ROSAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA

                                                                              (30/06/1986)

 


Ensaio

 

Mais um dia aceso nos meus olhos!

Perdida de amor ainda estou

na mortalha de dezembro.

 

Recolho amoras

no fundo do poço,

e, na superfície

vaga um marimbondo.

 

Pássaros berrantes

abrem o dia e acordam

cânticos azuis

Iluminando as horas,

que se compõem para a manhã.

                       (Dezembro de 1986)

 

 

  

Todo cuidado é pouco,

pois o amor é um cristal de estrelas!

 

Os oráculos não me perdoariam

...se me descuidasse das serpentes...

 

Inda que receba

uma centelha de momento – quase mortal,

 

todo cuidado é pouco.

                              (1986)

  

PROA

 

Esnobe

Coração

Arruaceiro

Descarrilha

Sol de verão

Na escotilha.

 

Viração.

 

Concerto de dois

Sós.

Vaguidão

Quebra rimas

Nas ondas.

Rochedos

De paixão.

         (1986)

 

São sempre brancas

e branco o meu coração.


Tênues são os brancos

brancas minhas memórias.


Brancas são as paredes

e brancos os teus cantos.


Brancos são os toques

e brancas as tuas falas.


Breves são as brancas

e branco o meu amor.


São sempre brancos e breves

nossos olhares esbranquiçados.

                                                                                         (1986)


NAVEGANTE

 

A permanência do não dito

viola a palavra.

 

Um pesadelo atravessa meus lençóis,

calando as estrelas,

e todo o medo esquarteja

o amor – repouso da morte.

 

Escorrega meu abraço no não feito

e mais te quero!

 

Livros novos na cabeceira

prendem-me na via pedregosa do teu beijo.

Eu me perco.

 

Apelas irreverente feito ladrão de versos

teu sexo em desalinho

mas escapas pelas frestas da noite

à procura de antigos retornos.

 

Nas correntes marítimas do céu

transborda o futuro

e desejos perdem a pressa.

                                (1986)

                   

 

O ESPELHO

 

Imoral escorregas cinzas nos meus seios,

agarras meus anseios com mãos sujas

e deslizas melodias pelas minhas pernas.

 

No oco do meu ventre cospes fogo

e insistente a natureza refugia-se em mim.

 

Recordo-me de um espelho muito distante

que vertia leite da imagem do teu rosto

e agora, imoral, sem iguarias jaz quebrado.

 

Imoral teu caminho cruza a minha sala

e se apagam as luzes da cidade,

para que calada ouça o silêncio.

                        ( 1986)


 

O retrato do meu bem querer

Amarela na gaveta, sob as roupas,

Cheira a mofo, a tempo perdido.

                  (1986)

  

HOTEL TOFFOLO     

                                      (Carlos Drummond de Andrade)

 

E vieram dizer-nos que não havia jantar.

Como se não houvesse outras fomes

e outros alimentos.

 

Como se a cidade não nos servisse o seu pão

de nuvens.


Não, hoteleiro, nosso repasto é interior,

e só pretendemos a mesa.

Comeríamos a mesa, se no-lo ordenassem as Escrituras.

 

Tudo se come, tudo se comunica,

tudo, no coração, é ceia.

 

Ao Toffolo

                     (Zezé)

 

E não havia mais ontem.

Como se não houvesse outras luas

e outros sonhos.

 

Como se o céu não nos oferecesse seu azul

de infinitos.

 

Não, nossa fome é de magia,

e só pretendemos a vida.

Acolheríamos a morte, se plena de amanhãs.

 

Tudo se ama, tudo se come,

“tudo, no coração, é ceia”.

                                           (1986)

  

Vai

 

Um sonho acorda meu bem amado

e a relva bebe o leite

dos seios da madrugada.

 

Pisa leve no orvalho,

 os cravos a ele curvam

um doce perfume

despertado pelo dia.

 

Meu amado vai em busca

de um cajado cor de mel

que um pastor muito velho

largou no caminho.

 

Meigo enlace do tempo

disputa com meu amado

o coração de uma estrela

que distante foi ficando.

 

Mas, há uma brisa passando,

serena e livre,

a envolver meu amado

nos seus beijos.

                                          (1986)

 

LOUCO POEMA

 

Um poema louco

vou arrancar da tua boca

no momento da paixão

e te deixar na mão,

desarmado e amassado.

 

Um poema louco

vou arrancar do teu corpo.

Ficarás com muito medo,

que afundarás teu rosto no meu peito

 

e, sem saberes o que fazer, gritarás!

Perderás as estribeiras

e mesmo que esperneies e urres

não conseguirás mais livrar-te dela.

 

Um poema louco

contaminará teu sangue,

cegará teus olhos,

 deixar-te-á mole,

sem controle do teu coração.

                        (1986)


Poderia não dizer.

Sim, poderia calar.

Apenas esperar.


Poderia simplesmente,

num arrebate do presente,

aparecer de repente

no meio dos teus papéis

e no calor do meu amar.

 

Afinal, ressentiria promessas

inconsequentes, de além cinzas,

dos ninhos das serpentes.

 

Nos varais da memória,

sim, poderia, qual miragem,

enrodilhar tua seriedade,

apaziguar minha sede.


Poderia sim, complicar

as conversas de poltronas,

enrasques dos casais

e, sem mais explicações,

acertar nos contrastes

do teu olhar.

                   (1986)

 

É um mundo rastreado

e um quarto de giz.

Um tempo esgotado

E um parto de mim.

            (1986)

 

Não havia meio de fazê-la desistir da ideia. Cor da Noite precisava ser encontrado. Andou por todos os planetas do sistema. Perguntou. Nada. Olhou. Nada! Chorou, esperneou, riu, xingou, saltitou, implodiu... até que resolveu simplesmente não fazer mais nada. Ponto! Chega – falou com seus botões.

Mas não adiantou porque, quando dormia, Cor da Noite vinha visitá-la. Ora como um cavaleiro pomposo vestido todo de branco montado num estranho cavalo, ora como uma foca, ora com um lobo, ora como ele mesmo que vinha de mansinho e lhe acariciava os cabelos. Lembrou-se que foi lá que brincaram de um só. Beijava-lhe as mãos, respirava nos seus ouvidos e murmurava: - Lia, sou eu, acorda, vamos àquela praia dos seus sonhos. Lembra? Foi lá que plantamos bananeira e demos cambalhotas como artistas de circo grudados um no outro, feitos uma bola e giramos, giramos muito. Quando meus pés alcançavam o chão os teus estavam no ar.

Lia então acordava. Procurava. Não via nada. Dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Procurava mas nem sabia o que. Não sabia. Não sabia nem se Cor da Noite existia. Lia era uma menina muito independente. Achava muito chata essa história de ser apenas aquilo que via no espelho. Quando se olhava no espelho via uma menina cheia de desejos. Desejava um sorvete e pronto! Lá estava. Desejava uma boneca e pronto! Lá estava. Desejava uma festa, pronto! Acontecia. Sempre assim. Mas com Cor da Noite era diferente. Ela não o desejava. Talvez por isso ele não passasse apenas de uma sensação.

Desejar é parecido com a mania de roer unhas ou com o hábito de dormir com bichinho de pelúcia. Lia sabia porque queria sorvete, era gostoso, uma boneca servia para brincar de mamãe e uma festa era para comemorar algo ou simplesmente alegrar, mas Cor da Noite para que serviria? Então era melhor não saber que Cor da Noite existia.

Um dia....

- Lia você deve deixar essa mania de procurar.

- O que? Ahnn? Quem é você?

- Eu sou a PROCURADORA.

- O que é isso? – perguntou Lia.

O verbo procurar pediu para que eu assumisse a procuração como minha obrigação, isto é, ao invés dele precisar trabalhar dia e noite sem parar um segundo sequer para as pessoas que não param nunca de procurar sem saberem porque nem o que, só procuram, procuram, procuram como doidas aquilo sem nunca achar.

- “Pera” aí um pouco. Você quer dizer que a gente não deve procurar nada?

- Bem.... isso depende. Se você procura um pé de sapato que sumiu, tudo bem, mas se você resolve procurar a felicidade, a alegria, a tristeza, a sabedoria, enfim, todas essas palavras, não vai encontrá-las.

- Como não, Dona Procuradora,  é só abrir o dicionário e....

- Pode parar. Eu não falei em encontrar o significado delas e... Ah! Deixa pra lá. O que eu posso fazer é tão somente procurar, procurar, procurar como você e acho que já estou cansada.

Lá lá lá lá LÁ! – ouviu-se uma cantoria e logo uma voz falou: - Que tempo bom está agora. Agora agora agora! Olá Olá. Quem são as moçoilas entabuladas em tão rico papo fútil inútil inconsútil?

- Lia.

- PROCURADORA. Vai dando o fora.

- Não vou, não quero, daqui ninguém me tira.

- Desembucha logo, anda – falou muito mal humorada a Procuradora.

- Como ousas falares assim comigo a ACHADORA?

- Achadora?- perguntou Lia com os olhos arregalados.

- Sim. Muito prazer, distinta senhorita. Desculpa minha entrada um tanto abrupta na história e meus modos, mas acontece que preciso ser e sou sempre muito rápida. Não liga para a cara feia da Procuradora, ela não gosta da minha presença.

- Anf! – Fez Procuradora.

- Por que seu nome é Achadora? – quis saber Lia.

- Porque sempre sempre sempre acho alguma coisa.

- Entendi e o que você acha de mim?

- Eu acho você, Lia, uma menina esperta, levada, sapeca, marreca, perereca e também chata, babaca, matraca, panaca....

- Mas por que?

- Por que o quê?

- Por que você acha tudo isso de mim?

- Ora, que pergunta mais boba, não está vendo que eu sou achadora e Eu, ACHADORA, tenho sempre que achar alguma coisa uai.

Lia ficou um pouco aborrecida com aquelas duas e resolveu sair de fininho. Não tinha mais graça ficar ali ouvindo tanta besteira. Procuradora e Achadora que a desculpassem, mas não tinha tempo a perder com bobagens. Achou melhor caminhar um pouco pelas ruas. (Bem, ela também era, afinal, uma achadora, porém de achados que serviam para alguma coisa). Era domingo e o dia estava***********continua..... 

                               ( 1986)

Lua Rouxinol

        1999 Adaptação para teatro do livro “Capitães da Areia” escrito por Jorge Amado (1912 -     ), Editora Record, 64 a edição, Rio de...