Parecia um pisca-pisca
desses de árvore de natal, todo colorido, lá longe.
À medida que o menino se
aproximava (ele tinha uns quatro anos) as luzes iam se juntando. Quando chegou
bem perto viu uma luz toda branca do tamanho dele. Ficou observando, de
soslaio, mas não assustado, porque era novo ainda e não aprendera ter medo de
tudo.
O seu jeito mostrava que
estava pronto para seguir. Entre os dois (menino e
luz) formou-se imediatamente uma compreensão que não necessitava de palavras.
Partiram. Como?
Assim, ora, como a gente faz
quando começa uma brincadeira e depois nem lembra mais como começou. Só sabe
que está lá, vivendo-a.
Chegaram ao mundo de lugar
nenhum que está em todos os lugares. O mundo que existe e não existe, conforme
o olhar.
Chegaram a um vale muito
grande, vazio, exceto por algumas pedras aqui e ali. A luz foi sumindo sumindo
sumindo. Sumiu. Um ruído atrás do menino lhe chamou a atenção. Virou-se e viu
muitas crianças que pareciam ter saído de um pote de mel. Tinham pele dourada e
andavam em câmera lenta. No meio delas havia uma moça ocupada em varrer o
lugar. Ao parar foi tirando, bem devagar, de dentro de um baú antigo pequenas
peças em miniatura de marfim que pareciam ser construções de uma civilização
muito antiga. Chamou o menininho.
- Vem cá, ajude-me.
Ia ajudá-la quando um corvo
apareceu batendo ruidosamente as asas. As crianças juntaram-se num só bloco e
formaram uma bola que saiu dali rolando até sumir da vista.
O menino ficou preso no
lugar sentindo-se pesado como uma rocha.
A moça largou o que fazia
para observar o voo do pássaro que vinha em sua direção. Quando ele chegou bem
perto já com o bico aberto para atacá-la ela se abaixou e aproveitou para
arrancar-lhe uma pena. O pássaro investiu em novo ataque, mas ela conseguiu
esquivar-se, roubando-lhe mais uma pena. Aconteceu uma terceira vez. Agora
possuía três penas do pássaro. Sentindo-se um pouco enfraquecida lembrou-se que
no baú havia um arco e uma flecha. Pegou-os. Eram tão pequenos que cabiam na
palma da sua mão. Habilmente conseguiu montar a arma e no exato momento de mais
um ataque do corvo atirou a flecha e o acertou entre os olhos. O pássaro virou
uma bola de fogo e consumiu-se até as cinzas.
O menino estava encolhidinho
encostado a uma rocha. Ela chegou bem perto e lhe disse:
- Não tenha medo de nada. Eu
estou aqui e vou cuidar de você. Nada de mal vai lhe acontecer. Venha conhecer
minha cidade.
- O que você vai fazer com
as penas? – perguntou o menino
- Vou pintá-las. Uma de
azul, uma de amarelo e uma de vermelho. Com elas escreverei o nome de todas as
crianças do mundo e sempre que elas se sentirem só poderão vir me visitar.
Venha agora.
Caminharam até o baú e
começaram a tirar as peças de dentro. Assim que eram colocadas no chão cresciam
até o tamanho normal. As casas eram todas brancas e amplas e foram dispostas em
círculo. Havia doze delas. A última peça a ser retirada foi um poço que ficou
alojado no centro do círculo.
- Quem mora nesta cidade? –
quis saber o menino.
- Muita gente. Todas aquelas pessoas que um dia partem e não vemos nunca mais.
- E como é que elas vêm até
aqui?
- Da mesma forma que você
veio. Um lindo brilho as traz para cá.
- Não estou vendo ninguém –
disse o garoto.
- Você já vai ver.
A moça, que também era uma
espécie de fada, girou sobre si mesma e saíram dela um monte de estrelinhas
prateadas, iguais a alguns fogos de São João. Quando parou de girar apareceu
vestida toda de negro e sobre a cidade baixou a noite. Uma noite escura. Sem
lua. Uma imensa tristeza caiu sobre a cidade. Então a moça fada falou:
- Esta cidade acabou de ser
construída para os novos moradores que estão a chegar. Vamos esperá-los.
Sente-se aqui no meu colo.
O menino não quis. Estava
apreensivo, quase compreendendo a escuridão da vida quando viu muitas luzes, de
várias formas, cores e tamanhos chegando. No meio delas havia uma bola
colorida. Foi a primeira a tomar outra forma e as crianças cor de mel ressurgiram.
- Estes são meus ajudantes –
explicou a fada vestida de preto.
- Por que ficou tudo escuro
e triste? – quis saber o garoto.
- Porque tem muita gente que
pensa que meu reino é escuro e triste e enquanto pensarem assim meu reino
também fica escuro e triste.
- Você tem mais cidades?
- Sim. Muitas. Desde que o
mundo é mundo eu as construo.
- Por que as pessoas têm de
vir para cá?
- Por que senão não caberiam
em suas cidades. Ficariam umas sobre as outras. Não há lugar para tanta gente.
- Mas a gente poderia
construir um prédio bem grandão, até o céu, argumentou o menino.
- Mesmo assim. O que iriam
comer? Tanta gente!
O menino não tinha mais o
que dizer. Ele já ouvira falar que muita gente morria de fome no mundo, mas
desconfiava que não era por falta de comida na terra. Devia ter um outro motivo
que muitos não tinham o que comer.
- E quando é que a gente
vira brilho? – perguntou.
- Nunca. A gente já é brilho, só não sabe disso. Geralmente só descobre quando já está de mudança.
- E as cidades onde vivem as
pessoas normalmente, foi você que construiu também?
- Sim. Fui eu. Na verdade,
elas são todas iguais. Estão todas no mesmo espaço e no mesmo tempo. É como se
fosse um imenso aquário, sem vidro, envolto numa tênue membrana transparente,
dentro de outro grande aquário e de mais outro e assim por diante pulsando como
um grande coração. Dependendo da localização da gente no aquário, tem-se a
impressão de que algumas coisas demoram mais tempo para acontecer e outras
acontecem mais rápido. Não é bem assim. No momento que algo nos acontece ou nos
atinge é porque ela já ocorreu, nós apenas estamos percebendo o que
convencionamos chamar de momento e...
- E a gente pode saber tudo?
– interrompeu o menino.
- Bem, sim e não...
- Como assim? – perguntou
intrigado.
- Porque existem muitas
maneiras de perceber uma mesma coisa. Só que isso... deu um longo bocejo a moça.
Nada mais
restava ao menino a não ser voltar para casa, esquecer tudo e brincar com seu
carrinho de corrida.
(Dezembro de 1986)
Parecia um pisca-pisca
desses de árvore de natal, todo colorido, lá longe.
À medida que o menino se
aproximava (ele tinha uns quatro anos) as luzes iam se juntando. Quando chegou
bem perto viu uma luz toda branca do tamanho dele. Ficou observando, de
soslaio, mas não assustado, porque era novo ainda e não aprendera ter medo de
tudo.
O seu jeito mostrava que
estava pronto para seguir. Não precisava dizer isso. Entre os dois (menino e
luz) formou-se imediatamente uma compreensão que não necessitava de palavras.
Partiram. Como?
Assim, ora, como a gente faz
quando começa uma brincadeira e depois nem lembra mais como começou. Só sabe
que está lá, vivendo-a.
Chegaram ao mundo de lugar
nenhum que está em todos os lugares. O mundo que existe e não existe, conforme
o olhar.
Chegaram a um vale muito
grande, vazio, exceto por algumas pedras aqui e ali. A luz foi sumindo sumindo
sumindo. Sumiu. Um ruído atrás do menino lhe chamou a atenção. Virou-se e viu
muitas crianças que pareciam ter saído de um pote de mel. Tinham pele dourada e
andavam em câmera lenta. No meio delas havia uma moça ocupada em varrer o
lugar. Ao parar foi tirando, bem devagar, de dentro de um baú antigo pequenas
peças em miniatura de marfim que pareciam ser construções de uma civilização
muito antiga. Chamou o menininho.
- Vem cá, ajude-me.
Ia ajudá-la quando um corvo
apareceu batendo ruidosamente as asas. As crianças juntaram-se num só bloco e
formaram uma bola que saiu dali rolando até sumir da vista.
O menino ficou preso no
lugar sentindo-se pesado como uma rocha.
A moça largou o que fazia
para observar o voo do pássaro que vinha em sua direção. Quando ele chegou bem
perto já com o bico aberto para atacá-la ela se abaixou e aproveitou para
arrancar-lhe uma pena. O pássaro investiu em novo ataque, mas ela conseguiu
esquivar-se, roubando-lhe mais uma pena. Aconteceu uma terceira vez. Agora
possuía três penas do pássaro. Sentindo-se um pouco enfraquecida lembrou-se que
no baú havia um arco e uma flecha. Pegou-os. Eram taão pequeno que cabiam na
palma da sua mão. Habilmente conseguiu montar a arma e no exato momento de mais
um ataque do corvo atirou a flecha e o acertou entre os olhos. O pássaro virou
uma bola de fogo e consumiu-se até as cinzas.
O menino estava encolhidinho
encostado a uma rocha. Ela chegou bem perto e lhe disse:
- Não tenha medo de nada. Eu
estou aqui e vou cuidar de você. Nada de mal vai lhe acontecer. Venha conhecer
minha cidade.
- O que você vai fazer com
as penas? – perguntou o menino
- Vou pintá-las. Uma de
azul, uma de amarelo e uma de vermelho. Com elas escreverei o nome de todas as
crianças do mundo e sempre que elas se sentirem só poderão vir me visitar.
Venha agora.
Caminharam até o baú e
começaram a tirar as peças de dentro. Assim que eram colocadas no chão cresciam
até o tamanho normal. As casas eram todas brancas e amplas e foram dispostas em
círculo. Havia doze delas. A última peça a ser retirada foi um poço que ficou
alojado no centro do círculo.
- Quem mora nesta cidade? –
quis saber o menino.
- Muita gente. Todas aquelas
pessoas que um dia partem e não vemos nunca mais.
- E como é que elas vêm até
aqui?
- Da mesma forma que você
veio. Um lindo brilho as traz para cá.
- Não estou vendo ninguém –
disse o garoto.
- Você já vai ver.
A moça, que também era uma
espécie de fada, girou sobre si mesma e saíram dele um monte ce estrelinhas
prateadas, iguais a alguns fogos de São João. Quando parou de girar apareceu
vestida toda de negro e sobre a cidade baixou a noite. Uma noite escura. Sem
lua. Uma imensa tristeza caiu sobre a cidade. Então a moça fada falou:
- Esta cidade acabou de ser
construída para os novos moradores que estão a chegar. Vamos esperá-los.
Sente-se aqui no meu colo.
O menino não quis. Estava
apreensivo, quase compreendendo a escuridão da vida quando viu muitas luzes, de
várias formas, cores e tamanhos chegando. No meio delas havia uma bola
colorida. Foi a primeira a tomar outra forma e as crianças cor de mel ressurgiram.
- Estes são meus ajudantes –
explicou a fada vestida de preto.
- Por que ficou tudo escuro
e triste? – quis saber o garoto.
- Porque tem muita gente que
pensa que meu reino é escuro e triste e enquanto pensarem assim meu reino
também fica escuro e triste.
- Você tem mais cidades?
- Sim. Muitas. Desde que o
mundo é mundo eu as construo.
-Por que as pessoas tem de
vir para cá?
- Porque senão não caberiam
em suas cidades. Ficariam umas sobre as outras. Não há lugar para tanta gente.
- Mas a gente poderia
construir um prédio bem grandão, até o céu, argumentou o menino.
- Mesmo assim. O que iriam
comer? Tanta gente!
O menino não tinha mais o
que dizer. Ele já ouvira falar que muita gente morria de fome no mundo, mas
desconfiava que não era por falta de comida na terra. Devia ter um outro motivo
que muitos não tinham o que comer.
- E quando é que a gente
vira brilho? – perguntou.
- Nunca. A gente já é
brilho, só não sabe disso. Geralmente só descobre quando já está de mudança.
- E as cidades onde vivem as
pessoas normalmente, foi você que construiu também?
- Sim. Fui eu. Na verdade,
elas são todas iguais. Estão todas no mesmo espaço e no mesmo tempo. É como se
fosse um imenso aquário, sem vidro, envolto numa tênue membrana transparente,
dentro de outro grande aquário e de mais outro e assim por diante pulsando como
um grande coração. Dependendo da localização da gente no aquário, tem-se a
impressão de que algumas coisas demoram mais tempo para acontecer e outras
acontecem mais rápido. Não é bem assim. No momento que algo nos acontece ou nos
atinge é porque ela já ocorreu, nós apenas estamos percebendo no que
convencionamos chamar de momento e...
- E a gente pode saber tudo?
– interrompeu o menino.
- Bem, sim e não...
- Como assim? – perguntou
intrigado.
- Porque existem muitas
maneiras de perceber uma mesma coisa. Só que isso... deu um longo bocejo a moça
Nada mais
restava ao menino a não ser voltar para casa, esquecer tudo e brincar com seu
carrinho de corrida.
(1986)
Nenhum comentário:
Postar um comentário