Porque estou a pensar nele neste momento?

Sei lá, talvez o jeito deste vento,

esta minha parada súbita na arrumação da casa,

para desarrumar o fazer metódico das horas.

Talvez uma saudade do último encontro ou,

uma vontade de remexer nos seus abraços

e ficar parada no encaixe de nós dois.

Estará trabalhando o meu namorado?

Ou ouvindo meus recados no vento da segunda-feira?

 

Minha mão esquerda fica presa sob minha perna direita,

não quer perder seu calor e sabe muito bem ela

o quanto podem ser efêmeras as palavras.

Sabe minha mão esquerda todas as intenções da direita,

mas se guarda da seriedade com que ela descreve o vento na rua.

Sabe minha mão esquerda o que pode a direita,

quando deseja alcançar o inconquistado, e lhe deixa o comando

e a ilusão de que é ela que realiza todo o trabalho.

 

Pura aberração! Pois é a esquerda que, sem alarde,

constrói todas as torres.

 

Agora não é mais vento,

é um vendaval inteiro a me envolver e me carregar.

Participo da fumaça à minha frente

e o prédio quase pronto entra dentro de mim,

a arvorezinha seca de folhas

mistura-se ao muro à casa do outro lado da rua,

assim pichado: MAR – GI – NAL!


O carro estacionado é de um cinza metálico

e o rapaz de blusão azul leva um envelope na mão.

Para o movimento de fora neste momento

e entro num mundo onde não existem mais versos.

 

Sou o barulho do brinquedo, a voz da minha filha,

o balanço da vidraça, o motor do carro andando,

o pingo da torneira, o rádio ligado

e quase fico sem respiração,

enquanto o ônibus amarelo, vermelho e preto passa

na buzina da boca do menino brincando com o caminhão de plástico.

O homem à porta da loja que reforma estofados

estufa mais uma cadeira e o carro, cinza metálico,

vai-se com seu dono. O céu está cinza azul

e vou mais além com o vendaval e não é mais possível palavrear.

                                                                               (20/07/1986)

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