Não havia meio de fazê-la desistir da ideia. Cor da Noite precisava ser encontrado. Andou por todos os planetas do sistema. Perguntou. Nada. Olhou. Nada! Chorou, esperneou, riu, xingou, saltitou, implodiu... até que resolveu simplesmente não fazer mais nada. Ponto! Chega – falou com seus botões.

Mas não adiantou porque, quando dormia, Cor da Noite vinha visitá-la. Ora como um cavaleiro pomposo vestido todo de branco montado num estranho cavalo, ora como uma foca, ora com um lobo, ora como ele mesmo que vinha de mansinho e lhe acariciava os cabelos. Lembrou-se que foi lá que brincaram de um só. Beijava-lhe as mãos, respirava nos seus ouvidos e murmurava: - Lia, sou eu, acorda, vamos àquela praia dos seus sonhos. Lembra? Foi lá que plantamos bananeira e demos cambalhotas como artistas de circo grudados um no outro, feitos uma bola e giramos, giramos muito. Quando meus pés alcançavam o chão os teus estavam no ar.

Lia então acordava. Procurava. Não via nada. Dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano. Procurava mas nem sabia o que. Não sabia. Não sabia nem se Cor da Noite existia. Lia era uma menina muito independente. Achava muito chata essa história de ser apenas aquilo que via no espelho. Quando se olhava no espelho via uma menina cheia de desejos. Desejava um sorvete e pronto! Lá estava. Desejava uma boneca e pronto! Lá estava. Desejava uma festa, pronto! Acontecia. Sempre assim. Mas com Cor da Noite era diferente. Ela não o desejava. Talvez por isso ele não passasse apenas de uma sensação.

Desejar é parecido com a mania de roer unhas ou com o hábito de dormir com bichinho de pelúcia. Lia sabia porque queria sorvete, era gostoso, uma boneca servia para brincar de mamãe e uma festa era para comemorar algo ou simplesmente alegrar, mas Cor da Noite para que serviria? Então era melhor não saber que Cor da Noite existia.

Um dia....

- Lia você deve deixar essa mania de procurar.

- O que? Ahnn? Quem é você?

- Eu sou a PROCURADORA.

- O que é isso? – perguntou Lia.

O verbo procurar pediu para que eu assumisse a procuração como minha obrigação, isto é, ao invés dele precisar trabalhar dia e noite sem parar um segundo sequer para as pessoas que não param nunca de procurar sem saberem porque nem o que, só procuram, procuram, procuram como doidas aquilo sem nunca achar.

- “Pera” aí um pouco. Você quer dizer que a gente não deve procurar nada?

- Bem.... isso depende. Se você procura um pé de sapato que sumiu, tudo bem, mas se você resolve procurar a felicidade, a alegria, a tristeza, a sabedoria, enfim, todas essas palavras, não vai encontrá-las.

- Como não, Dona Procuradora,  é só abrir o dicionário e....

- Pode parar. Eu não falei em encontrar o significado delas e... Ah! Deixa pra lá. O que eu posso fazer é tão somente procurar, procurar, procurar como você e acho que já estou cansada.

Lá lá lá lá LÁ! – ouviu-se uma cantoria e logo uma voz falou: - Que tempo bom está agora. Agora agora agora! Olá Olá. Quem são as moçoilas entabuladas em tão rico papo fútil inútil inconsútil?

- Lia.

- PROCURADORA. Vai dando o fora.

- Não vou, não quero, daqui ninguém me tira.

- Desembucha logo, anda – falou muito mal humorada a Procuradora.

- Como ousas falares assim comigo a ACHADORA?

- Achadora?- perguntou Lia com os olhos arregalados.

- Sim. Muito prazer, distinta senhorita. Desculpa minha entrada um tanto abrupta na história e meus modos, mas acontece que preciso ser e sou sempre muito rápida. Não liga para a cara feia da Procuradora, ela não gosta da minha presença.

- Anf! – Fez Procuradora.

- Por que seu nome é Achadora? – quis saber Lia.

- Porque sempre sempre sempre acho alguma coisa.

- Entendi e o que você acha de mim?

- Eu acho você, Lia, uma menina esperta, levada, sapeca, marreca, perereca e também chata, babaca, matraca, panaca....

- Mas por que?

- Por que o quê?

- Por que você acha tudo isso de mim?

- Ora, que pergunta mais boba, não está vendo que eu sou achadora e Eu, ACHADORA, tenho sempre que achar alguma coisa uai.

Lia ficou um pouco aborrecida com aquelas duas e resolveu sair de fininho. Não tinha mais graça ficar ali ouvindo tanta besteira. Procuradora e Achadora que a desculpassem, mas não tinha tempo a perder com bobagens. Achou melhor caminhar um pouco pelas ruas. (Bem, ela também era, afinal, uma achadora, porém de achados que serviam para alguma coisa). Era domingo e o dia estava***********continua..... 

                               ( 1986)

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