HOTEL TOFFOLO
(Carlos Drummond de Andrade)
E vieram dizer-nos que não
havia jantar.
Como se não houvesse outras
fomes
e outros alimentos.
Como se a cidade não nos
servisse o seu pão
de nuvens.
Não, hoteleiro, nosso
repasto é interior,
e só pretendemos a mesa.
Comeríamos a mesa, se no-lo
ordenassem as Escrituras.
Tudo se come, tudo se
comunica,
tudo, no coração, é ceia.
Ao Toffolo
(Zezé)
E não havia mais ontem.
Como se não houvesse outras
luas
e outros sonhos.
Como se o céu não nos
oferecesse seu azul
de infinitos.
Não, nossa fome é de magia,
e só pretendemos a vida.
Acolheríamos a morte, se
plena de amanhãs.
Tudo se ama, tudo se come,
“tudo, no coração, é ceia”.
(1986)
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